É, no mínimo, um livro polémico, sobretudo num meio editorial onde os índices de qualidade são medidos por máquinas que não trazem manuais de instrução. A premissa de “O Gene da Dúvida” (E-Primatur, 2025) faz-se à boleia da genética, apontando à medição – e julgamento – do génio criativo: “E se um teste de ADN pudesse determinar quem nasce verdadeiramente artista? E se um editor de livros tomasse a decisão de publicar ou não um determinado autor com base neste teste?”.
Cabe ao Dr. Friedrich Clause, num prólogo escrito no ano de 2064, apresentar a obra “Retrato do Artista Quando Moribundo”, escrita por um paciente seu de nome James Wright que, aquando da sua admissão no hospital onde Friedrich trabalhava, decidiu realizar o teste Zimmermann, algo que havia recusado durante toda a sua vida. Um teste que teve resultado “positivo”, ainda que o autor não o tenha sabido em vida, deixando este mundo sem saber se a genética o considerava ou não um génio passível de ser publicado – algo que fez em vida, mas sempre com o fantasma da farsa a pairar sobre si. “Retrato do Artista Quando Moribundo” é pois o livro escrito por James Wright na cama do hospital, ele que conseguiu derrotar o “demónio da curiosidade”, permanecendo na sombra da dúvida que o mundo editorial instalou sobre si.
James Wright conta-nos a fascinante história de Albert Zimmermann, que terá morrido de desgosto, mas que antes disso foi afastado da arte por uma séries de manobras parentais maquiavélicas, e da vida de cirurgião – a que o pai desejava para si – por um gargalo de garrafa. Recolhendo-se no laboratório do avô, qual “eremita excêntrico”, Zimmermann foi também considerado uma farsa no mundo da ciência, antes da aceitação geral do seu teste como o certificado máximo de qualidade literária. Circularam mesmo rumores de que, para levar a cabo as suas experiências, terá chegado a profanar a sepultura de Marcel Proust.
Nikos Panayotopoulos diverte-se a brincar com o meio literário, apontando-o como um negócio alimentado por estratégias de marketing no qual a arte se vê transformada em propaganda. Olha-se brevemente para os ghost writers – escritores-fantasma -, para o aumento dos preços dos livros ou, com muito humor, para o boom das auto-biografias, género que tem dominado muito boa prateleira e montra de livraria.
Mesmo sem ser um livro extraordinário, “O Gene da Dúvida” levanta questões importantes sobre aquilo que nos é inato e o que adquirimos ao longo da vida, numa reflexão sobre os artifícios da escrita, os instrumentos da crítica, a manipulação da arte e o talento – e onde se esconde, verdadeiramente, a natureza deste último.











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