No já sobrepovoado universo da fantasia, continuam a aparecer objectos capazes de merecer rasgados elogios, conseguindo baralhar com esmero e voltar a dar temas incontornáveis. “O Escudo do Príncipe” (Clube do Autor, 2025), o primeiro volume de As Crónicas de Castellane, é um desses objectos, mostrando a versatilidade de Cassandra Clare em criar nova matéria, aqui na sua primeira aventura de fantasia dirigida a um público mais adulto.
Estamos em Castellane, uma cidade feita de desigualdades sociais, governada pelos nobres da Colina e dominada, em termos económicos, pelas Famílias dos Forais. Kellian Saren – ou Kel -, um órfão sem grandes perspectivas de vida, vê o seu destino mudar quando é convocado a comparecer no palácio, lugar inacessível para o habitante comum.
Por ter parecenças com o jovem Conor, o jovem príncipe e futuro rei, será dada a Kel uma escolha: permanecer como órfão, enfrentando um destino de provável miséria, ou servir como o Escudo do Príncipe, passando a viver na corte como o primo e confidente do Príncipe. O seu papel será o de guarda-costas secreto, substituindo o príncipe quando se pressente existir risco de vida para este. Terá de aprender a caminhar e a falar como ele, a vestir-se como ele, a parecer-se sempre com ele, excepto quando se encontra no papel de primo e confidente – aí terá de parecer alguém completamente diferente.
Politicamente, existe uma crescente tensão entre Castellane e Sarthe, reflectida em discussões por causa de impostos, produtos e acessos às Rotas do Ouro, e espera-se que o príncipe herdeiro possa contribuir, de alguma forma, para melhorar as relações de Castellane com os Sarthians, a quem os marinheiros das docas se referem como “aqueles filhos da mãe da fronteira”.
Kel e Conor partilham, neste primeiro volume, o protagonismo com Lin Caster, uma médica Ashkar que, apesar da proibição do uso da magia – a não ser para tarefas menores -, tenta aprender mais sobre magia antiga, de modo a poder salvar a sua melhor amiga – e, quem sabe, devolver aos Ashkar o protagonismo perdido.

Há, para além deste trio, personagens como Markus Aurelian, o rei-filósofo que parece estar a centímetros da loucura; o Rei Trapeiro, que “pertencia às ruas da cidade, às sombras aonde os Vigilantes não se atreviam a ir, aos antros de jogo e às pensões baratas do Labirinto”; ou Beck Próspero, que dizem ser o controlador do Labirinto, “uma rede de pensões baratas, lojas de penhores, bancas de comida barata e armazéns degradados que, à noite, se transformavam no palco de torneios de boxe ilegais, duelos (também ilegais) e em compra e venda de contrabando diverso”.
Cassandra Clare vai incluindo, pelo meio, fragmentos da “História dos Feiticeiros”, atribuída a Laocantus Aurus Lovit III que, por si só, mereciam um livro à parte, ajudando a compreender melhor a história da ascensão e queda dos Ashkar, que esperam pela chegada de um novo guia.
“O Escudo do Príncipe” apresenta um mundo complexo, feito de intrigas políticas, lutas de classes, jogos de bastidores, tumultos históricos e romances em potência, deixando no ar a ideia de que poderemos estar diante de mais uma série épica assinada por Cassandra Clare. O segundo volume da série está já disponível na edição inglesa, esperemos que o Clube do Autor não demore a fazê-lo chegar às livrarias nacionais na versão traduzida.











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