“O dia em que me tornei pior do que um lobo” (Fábula, 2025) é uma narrativa simples, mas não simplista – pelo contrário -, de uma grande densidade emocional. O título deixa transparecer a metáfora do “lobo”, simbolizando alguma agressividade, enquanto a expressão “que me tornei” antecipa uma transformação interior. A protagonista, Carlota, vive os dias na escola na sombra da colega Andreia, o “lobo”, e da sua alcateia. Esta metáfora animal, tão presente nas histórias infantis, é aqui subvertida: o lobo não é apenas o predador externo, é também uma possibilidade que habita dentro de cada um de nós.

Amélie Javaux conduz o leitor pelos caminhos da empatia, salpicando a história com algumas ideias morais e dando visibilidade à fronteira entre a vítima e o agressor, tão ténue e frágil – às vezes, basta uma palavra, um sorriso, um gesto ou um olhar de soslaio. A narrativa, constituída por frases curtas mas perspicazes e expressivas, não exibe falsos moralismos, apenas introspecção, diálogo e possibilidades que podem conduzir à mudança de atitude.
As ilustrações de Annick Masson ampliam e completam a forte experiência emocional. O traço suave, dá corpo à vulnerabilidade da Carlota e à ambiguidade do “lobo”. As cores quentes — tons de laranja, amarelo e castanho — convivem com sombras e azuis frios, que sugerem isolamento e medo. A relação entre texto e imagem é dialógica: onde o texto silencia, a imagem fala. A ilustradora usa a expressão facial e o posicionamento dos corpos para representar hierarquias invisíveis: quem domina olha de cima; quem teme, recolhe-se. A narrativa visual, quase cinematográfica, da dor e da culpa, amplia o texto e exalta no leitor um efeito de empatia com a protagonista.

É, também, um livro que convida ao questionamento: o que leva alguém a “ser pior que o lobo”? Quando é que somos corajosos? O que é a coragem? Por que temos medo de lobos maus? Qual o nosso maior medo? Porque sentimos pavor? Juntos somos mais fortes? Qual o papel da consciência ética?
“O dia em que me tornei pior do que um lobo” é sobre conflitos entre pares, sobre bullying, mas também sobre a construção moral do “eu”, de como crescemos quando confrontamos as nossas próprias sombras. Um convite à coragem de não seguir a alcateia, mostrando que o verdadeiro lobo a vencer é o medo de sermos diferentes.











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