Os tempos mudam, mas os adolescentes continuam a enfrentar provas a ultrapassar no caminho para a idade adulta, além de interrogações acerca de si próprios e do mundo que habitam. Em “Nongens e a Singularidade Perdida” (Acento Tónico, 2025), Sérgio Mendes leva-nos para o ano 2135 e mais além, apresentando-nos jovens com os quais muitos se identificarão.
No início conhecemos Shua, que vive com a mãe e a irmã mais nova numa aldeia árida, e se encontra prestes a realizar provas para entrar na Ordem dos Mestres de Gheralta, resistindo ao bullying daqueles que o vêem como “o filho do desertor e da excomungada”. Shua dispõe de implantes biónicos que expandem as suas capacidades, conduz uma mota e um skate antigravíticos, possui imenso talento “para criar androides incríveis” e tem como animal de estimação um lince biónico com sentido de humor, que até o ajuda a estudar. Esta tecnologia avançada e a omnipresença da inteligência artificial fazem um contraste interessante com o cenário algo primitivo da aldeia no meio do deserto, bem como com o facto de os mestres escreverem exames com o próprio sangue. No ordálio final que a admissão na Ordem exige, será o sangue dos aprendizes a correr, evento após o qual a narrativa transita bruscamente para um futuro ainda mais distante, protagonizado por uma aprendiza chamada Sophia – e o facto de este nome significar sabedoria em grego não será coincidência.

Tanto Shua como Sophia se interrogam acerca do passado e esforçam-se por desvendar uma História marcada por seres alienígenas, que ensinaram os humanos a ler, a escrever, a calcular, a semear, a forjar os metais, a entender os céus e a dominar a mente. Perante uma imagem tão inepta da Humanidade – que, depois de tanta ajuda, degradou o planeta Terra até ficar à beira da extinção, foi salva por intervenção externa e posteriormente subjugada –, não se entende bem a insistência para que os adolescentes se deixem guiar pelo instinto. Algo que também se torna difícil de acompanhar e pode afastar leitores é a miríade de termos usados para designar grupos de seres, alguns dos quais tardam a ser esclarecidos: ardor, aeon, grigorin, deva, hashmallim, yaadgar, erelim, anakim, etc, para não falar dos nomes de máquinas, de tipos de androides, de animais e de conceitos metafísicos. Nota-se um recurso intenso à mitologia judaica, com uma pitada de cosmogonia grega e laivos de teosofia. O conhecimento instituído é alvo de suspeita, na medida em que todo o livro é percorrido pela ideia de que a informação disseminada pelas autoridades é adulterada, estando a verdade contida em livros proibidos, supostamente livres de falsidades ou manipulações. O maniqueísmo também está presente na oposição entre a luz de Laniakea, o universo conhecido, e a escuridão do Vazio Imenso, de onde provêm os demónios. Mas talvez a influência mais importante seja a do transhumanismo, patente em toda a tecnologia implantada nos humanos e na possibilidade de transferência da mente do corpo biológico original para outros suportes. Num contexto em que os heróis recorrem a tudo isto, estando pressuposta a dualidade entre espírito e matéria e tendo a Humanidade já sido alvo de aperfeiçoamentos no passado, a resistência às melhorias cibernéticas que os vigilantes pretendem realizar parece pouco relevante. Aliás, a afirmação de que os sonhos dos devas mudam a realidade torna tudo potencialmente irrelevante.
A narrativa é deveras criativa, com muito potencial para estimular a reflexão, mas poderia ter beneficiado de uma estruturação diferente, e as interrogações acerca da mensagem que pretende transmitir impedem uma reacção mais entusiástica. Um exemplo de um excerto que suscita estranheza é aquele em que dois amigos se sentam numa estação espacial, a contemplar “o globo terrestre”, e comentam: “– É mesmo plana, não é?” “- Plana e lisa como uma folha de papel”.











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