“Como é possível alguém ter partido há tanto tempo e continuar ainda tão presente?”. As palavras, atribuídas ao pintor Joaquim Mir, a 30 de Dezembro de 1939, versam sobre Vidal Balaguer (1873-?), um mito artístico – e amigo de Mir – desaparecido sem rasto quarenta anos atrás. Sem vontade para pintar a modelo que teria permanecido sem roupa alheia a qualquer corrente de ar, Joaquim Mir decide contar “o relato de uma das histórias mais misteriosas da já de si muito secreta Barcelona”, passada no século XIX.
É esta a história que Zidrou (argumento) e Oriol (desenhos e cor) contam em “Naturezas Mortas” (Arte de Autor, 2024). A história de um pintor que vai coleccionando dívidas mas que, ainda assim, recusa vender um quadro: o de Mar Noguera Monzó, por agora desaparecida, sua musa e grande paixão – assim como de muitos outros pintores.

Frequentador assíduo do cabaret boémio Els Quatre Gats – e uma das promessas maiores do Modernismo Catalão -, Balaguer recusa vender o quadro que para ele é como uma fotografia viva, e nem o facto de o potencial comprador ser inspector da polícia lhe retira o sono. Sob Balaguer pesa, contudo, uma maldição: tudo aquilo que pinta na tela acaba por desaparecer na realidade.
Zidrou confere a este álbum o tom de uma novela policial, com Balaguer obcecado em descobrir Mar enquanto se torna, para a polícia catalã, o principal suspeito do seu desaparecimento – bem como o de outras pessoas. Ao mesmo tempo, a narrativa mergulha no mundo da arte, nas fontes de inspiração, no acto da criação como o do esquecimento do mundo.

Para o final ficar reservado um texto assinado por Roser Doménech, “professora de história da arte na Universidade autónoma de Barcelona”, bem como uma extensa galeria de retratos que apetece pendurar em todas as paredes livres que tiverem em casa. O mais incrível de tudo é que, depois de uma pesquisa no mundo virtual, ficamos com a convicção de que Vidal Balaguer é, tão somente, um produto da imaginação de Zidrou, que com este álbum se torna, também ele, um pintor modernista. E esta, hein?











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