Conhecida sobretudo pela sua veia romanesca, que entre outras honrarias já lhe valeu o prémio Goncourt pelo livro “Canção Doce”, Leila Slimani é também autora de duas novelas gráficas, uma delas publicadas em 2024 com o selo da Iguana.
“Nas Suas Mãos” (Iguana, 2024), uma obra de ficção livremente inspirada na vida de Suzanne Noel, conta-nos a história da “Dra. Noel, cirurgiã, feminista, mulher livre e determinada”. Uma mulher que, a certo ponto da vida, se descobriu maçada com a vida burguesa e de dondoca, bem como o mundo patriarcal que cuspia frases como esta: “Qualquer dia, as mulheres em vez de amantes, são nossas professoras”.

Amante de arte, é a partir de uma exposição de Degas que revela o seu sonho: “O que me interessa, Professor, á a cirurgia reconstrutiva”. Apesar das reservas do marido, que diz não acreditar “que deveríamos arriscar a vida das pessoas por motivos meramente estáticos”, Suzanne Noel olha para a cirurgia plástica como um instrumento valioso para a emancipação da mulher, vendo na beleza um capital feminino capaz de diminuar as clivagens do patriarcado. É a falta de beleza que “põe as mulheres em desvantagem numa sociedade que dá primazia à beleza. Uma mulher que sofre com a sua aparência corre mais risco de viver na precariedade, de sofrer problemas emocionais”. Pelo caminho, sacrificou a vida familiar para devolver qualidade de vida e auto-estima aos seus pacientes, sobretudo combatentes que ficaram deformados durante a II Guerra Mundial, sendo também a fundadora e expansionista de uma série de clubes femininos.

Neste álbum que retrata uma das suas heroínas, Slimani junta-se a Clément Oubrerie, ilustrador com várias obras premiadas e vencedor de um César para melhor animação, que retrata na perfeição o ambiente da época, conferindo-lhe um certo tom noir que assenta muito bem nesta narrativa sobre uma feminista convicta que atravessou duas guerras e se ergeu contra as normas e os muitos preconceitos da época. E que, num discurso proferido em Copenhaga a 16 de Agosto de 1952, nos deixou estas sábias palavras que continuam a ser válidas: “A política, o exército, a tecnologia são obrigatórios, mas, acima de tudo, existe uma coisa mais importante. A alma comum e os valores espirituais. Esse dever cabe às mulheres, e a vocês, minhas caras jovens. Sejam o coração palpitante do mundo, a luz dos vossos países, as inspiradoras. As Antígonas dos homens”.











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