Até há pouco tempo, tanto a violência doméstica como a homossexualidade eram tabus, pelo que a produção literária nascida da intersecção desses dois temas é compreensivelmente escassa. Assim sendo, “Na Casa dos Sonhos” (Alfaguara, 2025), de Carmen Maria Machado, já mereceria destaque só por se enquadrar no pequeníssimo conjunto de obras que os abordam em conjugação, mas há aqui muitos mais aspectos dignos de registo, tanto na forma como no conteúdo.
Quando começamos a folhear o livro, descobrimos que todos os capítulos – e são dezenas, muitos deles com menos de uma página – começam com as palavras “A Casa dos Sonhos como…”. As variações são numerosas e surpreendentes: “Exercício de Ponto de Vista”, “Viagem no Tempo”, ou “Clássico Lésbico de Culto”, entre outras. A única excepção é um capítulo onde o termo “Casa dos Sonhos” é substituído por “Traumhaus”, que significa a mesma coisa em alemão. Porém, trata-se de “uma casa que não era uma casa e um sonho que não era de maneira nenhuma um sonho”. Embora o edifício tenha existência física, aquilo que acompanhamos é a transformação de uma perspectiva de felicidade numa mansão assombrada – uma prisão, que mesmo após a fuga continua a ser “uma masmorra de memória”.
Este é, assumidamente, um livro de memórias, onde a autora narra, de forma pouco convencional, a violência sofrida às mãos de uma parceira. O golpe que separou a primeira pessoa que ela foi, “segura e confiante”, da segunda, “que estava sempre ansiosa e a vibrar como uma raça de cão demasiado pequena”, traduz-se pela oscilação entre o uso do “eu” e o recurso ao “tu” para se dirigir à versão passada de si própria, cujo comportamento procura entender, quando a mulher que a deslumbrou, e que a fez sentir-se valorizada com o seu (aparente) amor, não só se empenha em fazê-la sofrer, como a leva a sentir-se cúmplice desse sofrimento.

Desde cedo, surgem pequenos sinais de alerta que funcionam como presságios: a comparação da namorada a uma planta carnívora, ou a equiparação de uma declaração de amor sua a um alfinete afiado, que prende Carmen à parede. Algo oculto começa a manifestar-se, primeiro “em pequeninas irrupções, até se transformar numa torrente”. Há manipulação emocional, distorção de palavras, insultos e agressões físicas que deixam cicatrizes invisíveis no espaço. No meio do terror, a aproximação ao universo dos contos populares é constante. A confissão do medo em que viveu não impede a autora de entretecer, em fragmentos de carácter diarístico, considerações acerca de literatura, cinema e cultura em geral, a par de uma análise social acutilante – como quando disserta acerca da preocupação com a “má publicidade” que a divulgação de histórias como a sua representam para as mulheres queer. Também é interessante encontrarmos paralelismos entre a estrutura circular da casa, o labirinto existencial de Carmen e a ironia triste de um capítulo que replica a estrutura dos livros do tipo “Escolhe a Tua Aventura”, no qual acções alternativas são apresentadas como ramificações (possíveis ou impossíveis) da história.
Depois da tormenta, o desenlace inesperado é um alívio. Se “um livro de memórias é, no seu cerne, um ato de ressurreição”, celebremos esta reconstituição do passado, onde Carmen amassa “os barros da memória e do ensaio com os factos e a percepção” para dar sentido ao passado e enfrentar o futuro.











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