A fantástica dupla Nazaré de Sousa/Renata Bueno já nos habituou a livros singulares, imaginativos, divertidos e provocadores. “Menina, eu não sou o lobo mau” (Hipopómatos na Lua, 2025) é mais um desses livros, um álbum particularmente interessante pela forma como joga com a própria construção da narrativa e o imaginário dos contos tradicionais: “Era uma vez uma menina…”.
A narrativa organiza-se em torno de uma relação meta-ficcional, entre um escritor e uma menina que resiste a ser personagem. “Ela balançava em todas as direcções, menos na da história. Eu começava a ficar cansado. (…) – Menina, não tenhas vergonha, ainda não há mais ninguém na tua história. Anda, dá-me uma mãozinha!”. Se, por um lado, o escritor surge como alguém que está a tentar criar a narrativa, por outro, a menina comporta-se como uma personagem que tem consciência (ou quase consciência) desse processo. Desde o início, instala-se uma tensão criativa, o escritor procura construir uma história, mas a menina, irreverente, autónoma e até algo provocadora, parece escapar ao controlo da própria narrativa. Esta ambiguidade coloca questões: Será a menina uma personagem “real” dentro do universo ficcional? Uma projecção da mente do autor? Ou será antes fruto da materialização do seu bloqueio criativo?
O leitor observa as reflexões sobre o próprio acto de contar a história, jogo onde a personagem parece conseguir resistir ao controlo do autor, questionando o rumo da história. A narrativa chama a atenção para si própria, e o leitor entra no bloqueio do escritor – e talvez, por momentos, tenha dificuldade em encontrar o fio condutor desta história, uma vez que está em constante construção. Não será esta uma forma inacreditável de desenhar narrativas? Pouco a pouco, o leitor compreende que a progressão da narrativa não obedece a uma lógica linear tradicional; pelo contrário, constrói-se através de desvios, interrupções e jogos de linguagem, apelando, por vezes, a algum nonsense como estratégia estética, o qual não surge de forma gratuita. Funciona antes como uma metáfora, uma expressão da própria crise de inspiração do escritor. Há hesitações, começos, recomeços e até algumas contradições, como se o leitor estivesse a assistir, em tempo real, ao processo criativo, com todas as suas falhas, avanços, bloqueios e reconfigurações.
Renata Bueno apresenta um traço expressivo e dinâmico, aproximando-se de um risco errante, indeciso, em tom de improvisação, reforçando a ideia de que a narrativa não é linear e que a menina não sabe se quer ser parte desta história. As ilustrações expandem, questionam e, por vezes, contradizem o discurso verbal, contribuindo para a atmosfera de estranheza e o humor. As guardas, iniciais e finais, padronizadas, presenteiam a ideia de desorganização, de caos, de alguma indecisão. Nas guardas finais, o leitor encontrará um desafio. Um livro criativo e incrivelmente imaginativo, que convida o leitor a participar na construção de sentido(s). Querem participar?











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