“Escutou como quem vê em casa, sozinho dentro da noite, um filme antigo de recordações em sortido, imagens mal editadas, umas a cores, a maioria a preto-e-branco. Com cortes e algumas faltas de sincronia. Um vídeo caseiro que era sobre ele, mas não era. Era sobre alguém que ele deixou lá muito atrás, e a quem ela se dirigia agora, de novo.”
Miguel Serafim pode finalmente encontrar alguma paz de espírito. A personagem, apresentada em “As Cinco Mães de Serafim” (Dom Quixote, 2023), que o final aberto desse livro deixara a sofrer com as incógnitas do passado da sua família, conhece finalmente as respostas a algumas das suas perguntas, em “Matarás Um Culpado e Dois Inocentes” (Dom Quixote, 2024).
Embora se trate de uma sequela – a primeira que Rodrigo Guedes de Carvalho compôs para um dos seus títulos –, o livro vale por si próprio e pode ser apreciado independentemente do anterior, pois houve o cuidado de resumir eventos cruciais para a compreensão do enredo, intercalando-os com factos novos que vão fazendo a história progredir logo desde o início. Regressamos, assim, às dinâmicas peculiares da família Temeroso em Gondarém, terra “lá em cima no Minho que se encosta à Galiza”, onde o casal composto pelo sereno e gentil João Sebastião, mais a “muito enérgica e directa” Maria Virgínia, com a ajuda de duas empregadas galegas, criaram as quatro irmãs de Serafim, tão mais velhas do que ele, que o pequeno as via como mães. Quatro mulheres com dons que nos remetem para o realismo mágico, e que ele perdeu no dia 24 de Abril de 1974: três delas evidentemente mortas, por homicídio ou suicídio colectivo, e a outra desaparecida.
Meio século depois, a população local ressente-se da pouca atenção que dedicou à tragédia, abafada pelos ecos da Revolução do 25 de Abril, e decide realizar uma cerimónia evocativa. Miguel Serafim, o Maestro, regressa, por essa razão, “a uma casa que o visita nos pesadelos”, acompanhado pelos dois homens que formam com ele os vértices de um “triângulo inquebrável”: José Paulo Azeredo, ou Pablito, e Vasco Lazarte, o Puma, companheiros de infância separados na adolescência, que retomam, já sexagenários, a espantosa amizade “com força de vulcão adormecido”.

Através dos amigos, Miguel Serafim descobre a fraude no cerne da família. Porém, os mistérios que persistem apenas serão esclarecidos após o regresso da desaparecida, cuja história de vida seria, por si só, digna de um livro. As surpresas sucedem-se a bom ritmo, culminando num final fortíssimo.
Adaptando uma analogia do autor, as várias linhas narrativas são como cursos de água de espumas entrelaçadas, a brincar às escondidas, trazendo à superfície revelações que suscitam novas questões. Na sua voz original, com uma linguagem rica e referências culturais que vão desde “Jesus Cristo Superstar” a “O Padrinho”, o autor consegue abarcar alegrias e misérias de uma família, violências sistémicas e amizades luminosas – e também o confronto humano com os desígnios insondáveis dos deuses, do destino, ou do acaso, que matam dois inocentes por cada culpado.











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