“Escrever é fazer a apresentação, e antes de mais a nós mesmos, de fantasmas, corpos invisíveis que nos rondam, que pressentimos”. A escritora a quem são atribuídas estas palavras nunca existiu. A sua biografia, bem como a sua produção literária, são o produto da imaginação fértil de Paulo José Miranda, autor multi-premiado tanto pela sua poesia como pela prosa: os livros de poesia “A Voz Que Nos Trai” e “Exercícios de Humano” receberam, respectivamente, o Prémio Teixeira de Pascoaes e o Prémio Autores da Sociedade Portuguesa de Autores, enquanto a novela “Natureza Morta” venceu o Prémio Saramago e o romance “A Máquina do Mundo” foi distinguido com o Prémio Ciranda.
“Máquinas de Ficção” (Caminho, 2025) é uma compilação de textos publicados originariamente no jornal “Hoje Macau” – sendo Macau um dos territórios por onde passou este autor, que também viveu na Turquia e no Brasil antes de regressar a Portugal. Cada texto é uma recensão a um livro fictício, na qual se encena uma realidade alternativa, mas verosímil, onde vozes fantasiadas são colocadas em diálogo com as de escritores, filósofos e músicos reais. É neste contexto que se atribui a autoria de um livro sobre as chacinas anti-semitas a um antepassado judeu de Fernando Pessoa, ou se apresenta uma nova corrente literária chamada “rock reflection”, composta maioritariamente por ensaios acerca de música e bandas rock. As teses da multitude de figuras que povoam estas páginas proporcionam ao crítico excelentes ocasiões para breves reflexões sobre os mais diversos assuntos, por vezes com alguma ironia, como no caso da suposta escritora que considera a identidade uma ilusão e, apesar disso, discorre que “uma coisa é ser a minha ilusão e outra a ilusão que recebo de outros”.

No meio deste jogo literário, encontramos alguns temas que se repetem. Por exemplo, na primeira recensão, o autor visado teria escrito que “a grande invenção humana é a ironia, não é a roda”; mais ou menos a meio do livro, outro considera que “a mais bela invenção humana” é a bondade; e perto do final surge um terceiro a declarar que “a grande invenção humana não foi a roda, a penicilina, ou o foguetão que nos levou à lua, mas a alegria”. Perante a diversidade de argumentos, fica ao critério do leitor determinar qual foi, afinal, a mais significativa das invenções da Humanidade.
Um segundo tema fulcral é a própria escrita. Já citámos no início uma autora que a comparava “à apresentação de fantasmas”. Outra encontra paralelismos entre trabalhar as palavras e o barro: “Com este formam-se coisas, com as palavras deformam-se coisas. Ambas as tarefas têm um imaginário e um real. Mas acima de tudo têm um sonho: que aquilo que moldam se pareça com uma necessidade humana”.
Adivinhamos que a necessidade aqui em causa é aceder ao poder da imaginação. Um poder que não falta a Paulo José Miranda, que o exerce aqui para moldar um universo onde reina a literatura.











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