“«Já que perguntas, podes trazer-me um pouco de manteiga, se houver? Este inverno, tem havido rotura nos stocks de manteiga e não consigo arranjá-la em lado nenhum. Se não conseguires, também não faz mal! O que eu mais quero é que chegues cá rápido.»”
A primeira referência à palavra “Manteiga” (Casa das Letras, 2025), título do romance da japonesa Asako Yuzuki, surge logo de entrada, mas atravessa-o de uma ponta à outra como um tsunami de colesterol, servindo de alimento a um livro que se lê como um tratado gastronómico da condição feminina. Um livro inspirado num caso real, espécie de policial gourmet a que não faltam algumas receitas para experimentar em casa.
A personagem que alimenta a narrativa é Manako Kajii, detida no Centro de Detenção de Tóquio pelo assassínio em série de homens de negócios solitários, que se terão deixado seduzir por ela e, sobretudo, pela comida caseira que confeccionava. Na vida, há duas coisas que Kajii detesta: feministas e margarina – mas também jornalistas, sobretudo mulheres jornalistas.

A imprensa vai disputando sem sucesso uma entrevista exclusiva, uma demanda impossível até Rika Machida, também ela jornalista – e mulher -, lhe escrever uma carta a pedir-lhe a sua receita de guisado de carne. Uma carta a que Kajii não consegue resistir a dar resposta, dando início a uma série de visitas que, a dado momento, se assemelham a um workshop teórico de culinária, que despertam em Machida um fascínio pela comida, um acordar de um corpo limitado pelas regras e costumes sociais. “Desde a infância que a sociedade incutia a ideia de que, se uma mulher não fosse magra, não era digna de atenção. Escolher não fazer dieta e viver com um corpo anafado era uma opção que exigia que as mulheres se mentalizassem de antemão. Era-lhes pedido que abdicassem de certas coisas e, ao mesmo tempo, lograssem outras”.
Asako Yuzuki preparou um menu de degustação para o leitor que, entre iguarias de fazer crescer água na boca, se verá mergulhado numa história sobre prazer, transformações do corpo, misoginia, prazer, (des)amor e todas as convenções sociais que as mulheres japonesas enfrentam, num país que não é feito para gente anafada.











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