As Antilhas são, para muitos, um excelente destino de férias. Porém, para uma certa jovem de 19 anos que nunca conheceu outro lugar, a sua pequena ilha é uma prisão insuportável. Ansiando por algo totalmente diferente, parte para os EUA com a intenção expressa de tomar conta de crianças durante o dia e estudar à noite. O mundo que encontra é-lhe estranho e algo decepcionante – confrontada com um frio invernal a que não está habituada, os lugares que sonhava serem “pontos de felicidade” parecem-lhe “triviais, sujos, desgastados pela multidão” –, mas nada a faz desistir de abrir, entre o passado e o presente, uma brecha tão grande quanto o oceano que agora a separa da antiga casa.
Ela chama-se “Lucy” (Alfaguara, 2025), e tem muito em comum com Jamaica Kincaid, autora multipremiada, várias vezes apontada para o Prémio Nobel da Literatura, que introduz um forte cunho autobiográfico neste curto e intenso romance de formação.

O olhar de Lucy sobre o seu novo mundo é o de uma estrangeira que consegue ver o que escapa aos nativos, mas o seu espírito crítico não nasce de repente, como demonstram as suas recordações. Ela está bem ciente que duas pessoas podem olhar para a mesma paisagem e ver coisas diferentes, embora tal conhecimento não implique que saiba sempre como reagir às situações com que é confrontada. Sendo uma mulher de pele castanha, sem posses, acostumada “a observar as consequências de não se ter o suficiente”, que agora cuida das quatro filhas de um casal abastado de aspecto escandinavo, testemunhando com bom humor os lamentos de gente bem-intencionada que declara preferir ter menos, ela é particularmente sensível às desigualdades étnicas, económicas e de género. É um prazer acompanhar os meandros da sua mente – que, por exemplo, vê além da fachada e antecipa a desagregação daquela família –, levando-nos a lamentar que nem sempre a compreendam quando ela diz “muitas verdades diferentes com uma só afirmação”.
Entre experiências novas, amizades que se desintegram e amantes que não ama, acompanhamos cerca de um ano na vida de Lucy, que só no final da narrativa revelará a razão do seu distanciamento da mãe, cujo amor se tornou um fardo, apesar de talvez ter sido o único amor verdadeiro que conheceu. Um ano de transformação em alguém que ainda não conhece bem, mas que certamente continuará a desafiar as expectativas dos outros. Forte e decidida, Lucy não duvida que o início da sua “vida a sério” lhe deixará uma cicatriz algures, mas assume a responsabilidade de definir o seu próprio rumo, sem medo que a vida venha a ser fria e dura. Mais do que narradora da sua história, ela é a autora das linhas com que escreverá o seu futuro.











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