Com “Levarei o Fogo Comigo” (Alfaguara, 2025), Leila Slimani encerra com mestria a trilogia iniciada com “O País dos Outros” (ler crítica) e “Vejam Como Dançamos”, oferecendo neste último livro uma narrativa intensa, profundamente humana e politicamente relevante. A autora reafirma a sua capacidade de construir personagens complexas e enredos que entrelaçam o íntimo com o colectivo, o pessoal com o histórico.
“Levarei o Fogo Comigo” inicia-se com uma introdução calorosa às personagens já conhecidas, criando uma ponte emocional com os leitores dos volumes anteriores. O prólogo, centrado em Mia, a mais velha das irmãs que integra a terceira geração da família Belhaj, é um verdadeiro cartão de visita: vibrante, inquieto e revelador da força interior da personagem, que se tornará um dos eixos da narrativa.
O romance acompanha o crescimento de Mia e Inès, duas irmãs que, embora criadas no mesmo ambiente, seguem caminhos distintos. As diferenças entre elas servem como metáforas para o confronto entre tradição e modernidade, entre o peso da herança cultural marroquina e o desejo de emancipação individual. Slimani explora com sensibilidade as tensões familiares, as frustrações geracionais e os dilemas identitários que atravessam as personagens.

O retrato de Marrocos nos anos 80 é rico e crítico. A autora não se furta a abordar temas delicados como o islamismo, o extremismo, a repressão política e a liberdade de expressão. A pergunta “Seria Marrocos uma verdadeira democracia?” ecoa ao longo do texto, revelando o desencanto de quem vive entre fronteiras físicas e simbólicas. Mia e Inès nasceram em Marrocos na década de 80, num país dividido entre o desejo de modernidade e o medo de perder a sua identidade. Enfrentam o preconceito e o desprezo, mas alimentam-se do fôlego que já havia movido as gerações anteriores das mulheres da família, a avó Mathilde, a mãe Aicha e a tia Selma. A memória, tema recorrente na obra, é tratada como um fio condutor entre gerações. A autora questiona o que resta da identidade quando a memória se esvai, e como o exílio — seja geográfico ou emocional — molda a forma como nos vemos e somos vistos.
Outro ponto alto da mensagem de Slimani é a reflexão que realiza quando explora o contraste entre Marrocos e os estados ocidentalizados, onde a liberdade parece mais tangível, mas também mais complexa. Slimani não idealiza o Ocidente, mas usa-o como contraponto para explorar o exílio, a perda de raízes e a reconstrução da identidade.
Um romance poderoso, que combina beleza narrativa com profundidade temática, no qual Leila Slimani oferece uma reflexão madura sobre pertença, liberdade, família e o papel da mulher num mundo em constante transformação.











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