Em “Jardins Perfumados para os Cegos” (Antígona, 2025), de Janet Frame, uma mulher confronta-se com emoções contraditórias perante o facto de a filha ser muda. A narrativa abre num registo duro, marcado pelo sofrimento implícito e uma raiva contida que parece infiltrar-se em cada gesto e pensamento.
Segue-se uma vida que se constrói na ausência de palavras e de entendimento, mas que procura, ainda assim, as pequenas condições que tornam possível o conforto de existir. A escrita transforma-se num verdadeiro bailado de sensações, onde os sentidos substituem aquilo que falta e passam a ser a principal via de contacto com o mundo.
Neste livro, a referência aos cegos funciona como uma poderosa metáfora sobre a incapacidade humana de comunicar e de perceber a realidade, bem como uma crítica ao isolamento e aos preconceitos da sociedade. Numa família incapaz de comunicar, cada elemento encontra a sua própria estratégia de sobrevivência e afirmação. Afastar-se ou emudecer, mais do que limitações, tornam-se formas de linguagem alternativa, tentativas de construir significado fora das convenções sociais.
Mesmo quando essa linguagem não é partilhada, ela insiste em existir: no mutismo de Erlene, a adolescente que sofre de uma mudez voluntária, recusando-se a falar num mundo que considera insensato e inabitável; na frustração da mãe, angustiada pelo isolamento e pela dor, que se auto-impõe uma vivência fictícia através da qual escolhe viver; ou na alienação do pai, um homem emocionalmente ausente, obsessivamente focado em genealogia, abandonando a família para investigar a história de uma linhagem distante num “outro mundo”.
O romance revela-se um exercício de atenção plena aos sentidos. Cada descrição da realidade, captada por quem parece diminuído, assume a intensidade de um pequeno êxtase. Sons, cores, cheiros e significados surgem com autonomia própria, como se cada personagem habitasse um universo sensorial singular. O livro transforma-se, assim, num hino à sensibilidade e à riqueza da experiência humana.
A obra explora ainda a ténue fronteira entre sanidade e loucura, normalidade e excentricidade, acomodação e ousadia. As personagens centrais — a que parte em busca de um desígnio pessoal; a que permanece enquanto sente instalar-se uma cegueira metafórica; a que deixa de falar mas enriquece o diálogo interior — expõem a força e o condicionamento dos mundos íntimos que raramente se revelam, mas que moldam profundamente o comportamento humano.
Eduard surge como um aristocrata pomposo, aparentemente indiferente a tudo, uma figura que encarna a distância emocional e a incapacidade de ligação. Já Vera, a protagonista, vive prisioneira de uma culpa silenciosa pela mudez da filha. O medo de que o silêncio se expanda na proporção dessa culpa afoga-a numa torrente de palavras interiores, como se à sua volta todos deixassem de falar na medida da responsabilidade que ela atribui a si própria — por aquilo que fez ou deixou de fazer. “Jardins Perfumados para os Cegos” revela como o silêncio pode ser mais ensurdecedor do que qualquer palavra e como, por vezes, é no interior que os diálogos mais intensos acontecem.
Janet Frame (1924-2004), eternizada na autobiografia e no filme “Um Anjo à Minha Mesa”, de Jane Campion, é tida como uma das maiores escritoras neo-zelandesas do século XX. Romancista, poeta e contista premiada, converteu um passado de pobreza e doença mental em literatura. Em 1952, o seu primeiro prémio literário salvou-a de uma lobotomia num hospício, experiência narrada no livro “Faces in the Water” (1961). Resistente às convenções do tempo, questionou na sua obra as fronteiras entre sanidade e loucura, a violência institucional e o estigma que paira sobre os ostracizados.











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