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“Huris” | Kamel Daoud

Por Ana Ilhéu · Em 28/01/2026

“Evito que nasças para evitar que morras a cada momento”. “Huris” (Bertrand Editora, 2025), do escritor e jornalista argelino Kamel Daoud, começa com o diálogo interior e silencioso de uma mulher, dirigido ao feto que traz dentro de si, justificando a intenção de não o deixar nascer. Esta mulher chama-se Alva e apresenta-se como uma aberração, alguém que precisa de se esconder, de se disfarçar. O seu corpo não corresponde à norma e, num contexto em que o corpo feminino é simultaneamente campo de controlo político e símbolo moral, essa diferença transforma-se em culpa. Na Argélia dos anos 90, ser mulher é já um desvio; ser uma mulher marcada pela violência é tornar-se um incómodo social.

Enquanto leitores ou espectadores, através do seu diálogo – e sem percebermos bem porquê -, começamos desde logo a sentir a sua tristeza e a sua revolta interior. Alva não corresponde ao padrão e, por isso, esconde-se e é escondida. A sua resistência não é feita de grandes gestos, mas de sobrevivência quotidiana — uma forma de dissidência silenciosa num país onde falar, lembrar ou existir fora da norma pode ser fatal.

A guerra civil argelina, que atravessa o romance como uma ferida aberta, nasce do colapso político após a interrupção do processo democrático no início da década de 1990. O confronto entre o poder militar e os movimentos islamistas armados arrastou a população civil para uma violência sem rosto, onde a religião foi convertida em instrumento de terror e legitimação do massacre. As mulheres tornaram-se alvos preferenciais: símbolos da honra, da tentação e da corrupção do mundo, foram punidas nos seus corpos para restaurar uma ordem moral imaginada.

Alva corria através das palavras, chegando mais depressa onde os outros tinham dificuldade. Dessa forma, superava a exclusão imposta pelo seu aspecto e pela sua mudez — uma mudez apenas aparente. Num país onde o silêncio foi imposto como estratégia de sobrevivência colectiva, o seu mundo interior torna-se espaço de liberdade. Alva é uma excluída, diferente, diminuída. E, ainda assim, encarna uma força ética rara: a capacidade de não sucumbir à hostilidade e ao ostracismo. O romance evidencia como a marginalização não é apenas produto da violência armada, mas também da cumplicidade social — de vizinhos, instituições e famílias que aprenderam a não ver, a não perguntar, a não lembrar.

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A narrativa expõe uma sociedade onde, mulheres que ousam desafiar o poder masculino e as normas religiosas, coexistem com outras que as vigiam e denunciam — “prisioneiras que se tornam guardas da prisão”. Este mecanismo de vigilância interna revela como o controlo patriarcal se perpetua, não apenas pela força dos homens armados mas, também, pela interiorização das regras por parte das próprias mulheres, num sistema que recompensa a obediência e pune a diferença.

A degolação a que Alva sobrevive — prática recorrente durante os chamados “anos negros” — não é apenas um acto de violência individual, mas um gesto político: eliminar o outro, apagar o rosto, suprimir a identidade. Sobreviver a esse gesto faz de Alva uma anomalia histórica. Mantê-la viva, ainda que desfigurada, é deixá-la carregar a prova de um crime que o país prefere esquecer. Na Argélia do pós-guerra, não há lugar para as vítimas. Não existem listas, arquivos, imagens ou rituais de luto colectivo. O silêncio institucional funciona como uma amnistia moral. As vítimas são toleradas apenas enquanto permanecem invisíveis. Por isso, Alva não é reconhecida como sobrevivente, mas como escândalo — um corpo que lembra aquilo que a nação tenta apagar.

“Huris” é, assim, um romance profundamente político. Ao contar a história de uma mulher, expõe a falência de um projecto nacional, a instrumentalização da fé e a persistência de estruturas patriarcais que atravessam a guerra e a paz. Mas é também um relato de resistência: a prova de que, mesmo quando a história oficial silencia, os corpos continuam a falar. À conta de “Huris”, com o qual foi distinguido com o Prémio Goncourt – e de outros escritos igualmente incómodos -, Kamel Daoud foi alvo de uma fatwa e perseguido politicamente, vivendo actualmente em Paris.

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Ana Ilhéu

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