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Hotel Savoy, Deus Me Livro, Crítica, D. Quixote, Dom Quixote, Joseph Roth
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“Hotel Savoy” | Joseph Roth

Por Ana Ilhéu · Em 16/04/2024

“Em todas as cidades do mundo há hotéis Savoy, uns maiores outros menores, e em todos, nos últimos andares, vivem sempre Santschins afogados nos vapores das roupas dos outros.”

“Hotel Savoy” (D. Quixote, 2024), escrito em 1924 por Joseph Roth (1894-1939), figura central da literatura centro-europeia do século XX, surge como um exercício projectivo da sociedade, estratificada por pisos. O próprio Joseph Roth, escritor e jornalista austríaco de origem judaica, que morreu na miséria em 1939, observa que o hotel representa a ordem social virada de cabeça para baixo: os ricos e bem alimentados ocupavam as grandes salas públicas no piso térreo, enquanto os pobres eram amontoados nos últimos andares, em sótãos esquálidos.

O protagonista, Gabriel Dan, regressava de um campo de prisioneiros de guerra na Sibéria, após ter combatido na Primeira Guerra Mundial. Enquanto não decidia prosseguir viagem e encontrar a família que não sabia se ainda o esperava, Gabriel considerou que o Hotel Savoy oferecia tudo o que ele precisava. O que encontrou, no entanto, foram sete andares de desespero, onde os corredores em forma de labirinto eram habitados por uma variedade de sonhadores, revolucionários fracassados e gente que nunca seria capaz de pagar as contas, muito menos de partir. O próprio Gabriel tem um dos quartos mais baratos, no penúltimo andar, e vê-se envolvido numa série de esquemas de sobrevivência e desafios quotidianos, relativamente inusitados face ao que seria a sua ideia inicial, como se começasse também ele a ficar refém de uma verdadeira torre de Babel. Gabriel está marcado pela experiência na guerra, e acha difícil voltar a sintonizar-se com a humanidade. Ainda assim, rapidamente se adapta ao ritmo do hotel – mesmo que constantemente sinta que deveria seguir em frente.

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O relato começa de forma desprendida e incisiva. Imediatamente estamos lá, onde Roth posicionou o protagonista, nas trincheiras da guerra, na enfermaria onde recuperou e nos campos onde degradou corpo e alma. Imediatamente estamos lá, tal é a arte de Roth enfatizar o relato com detalhes de como Gabriel terá vivido, a dor, a fome e o desânimo. A chegada ao Hotel Savoy representa o momento em que percebe que é possível renascer, sorvendo cada evidência, o movimento de quem circula, os cheiros e a imagem do que observa, o acolhimento de quem o recebe e lhe confirma que, apesar de tudo o que passou, ainda é gente. Segue-se o confronto com a realidade, o deambular pelo quotidiano e o modo de pensar e de sobreviver da sociedade, o domínio do lucro e as estratégias para o obter.

“Este Hotel Savoy era como o mundo, irradiando magnificência para fora, imponente nos seus sete andares, mas habitado por uma pobreza divina, as pessoas importantes estavam em baixo, enterradas em arejadas sepulturas, e os sepulcros eram camadas empilhadas por cima dos agradáveis quartos dos ricos, ricos que viviam em baixo, em paz e sossego, sem sentir os frágeis caixões em forma de quartos nem ser incomodados por eles”.

O Hotel Savoy acaba por representar a comunidade à qual o protagonista nunca se havia vinculado ainda que, neste espaço de passagem, tenha descoberto a solidariedade e o compromisso, atribuindo sentido à sua existência. Desde o homem do elevador, aos diversos hóspedes e a Stasia, a rapariga que o fez descobrir o desejo, Gabriel volta a tomar contacto da vida em comunidade, uma “casa na qual pessoas estranhas umas às outras só estavam separadas por paredes finas como papel ou um cobertor, mas viviam, comiam e passavam fome juntas”.

É extraordinário o relato que emparelha o perfil psicológico e social das personagens com a vida em sociedade e o desempenho moral de cada um, individualmente ou no colectivo. A determinada altura, é possível sentir o Hotel Savoy como uma maquete, uma micro representação da vida em sociedade.

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Ana Ilhéu

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