Usualmente, entendemos uma fronteira como uma linha, uma zona ou um espaço que delimita e separa territórios, países, regiões ou culturas. Porém, algumas fronteiras “são invisíveis: nem nos apercebemos de que as atravessamos. Outras são construídas por um muro de vários metros de altura e pretendem ser intransponíveis. Algumas fronteiras atravessam o meio de uma casa, entre a sala e a cozinha, e outra são guardadas por militares armados”. Assim sendo, afinal o que é uma fronteira? Que tipos de fronteiras existem? Quem desenha as fronteiras? As fronteiras são efémeras? Há fronteiras no espaço? A definição de fronteiras coloca questões morais? Estas e muitas outras questões são tratadas no magnífico livro “Fronteiras” (Lilliput, 2025), onde Karim Ressouni-Demigneux nos apresenta diferentes sentidos de fronteira: como limite, separação, protecção ou obstáculo, mas também o impacto das fronteiras nas pessoas e nas identidades.

O texto assume um tom reflexivo, muitas vezes próximo de questões filosóficas, com frases curtas, claras e deliberadamente abertas, evitando explicações fechadas ou conclusões moralizantes – a contenção linguística é fundamental para que o leitor se inquiete e interrogue. Longe de uma abordagem meramente informativa, o livro convida o leitor a questionar aquilo que normalmente é aceite como evidente.
Belíssimo álbum ilustrado, “Fronteiras” destaca-se pela forma subtil e eficaz como articula texto e imagem para abordar um tema complexo: a ideia de fronteira enquanto construção humana, simbólica e política. É nas ilustrações que o livro ganha uma dimensão expressiva decisiva, ampliando o sentido do texto. As fronteiras desenhadas surgem ora como linhas rígidas e artificiais, ora como marcas frágeis e quase invisíveis na paisagem. Esta oscilação visual reforça a ideia principal do livro: as fronteiras existem porque as desenhamos. A maioria, se não todas, não são naturais nem inevitáveis. As guardas iniciais deixam antever o tema, e o facto de as guardas finais serem iguais poderá significar que o tema continua em aberto para reflexão.

A relação entre texto e imagem é de complementaridade: o texto sugere conceitos como divisão, pertença ou exclusão, e a ilustração concretiza-os através de figuras humanas pequenas face aos mapas, muros ou linhas desproporcionais. Esta escolha gráfica sublinha a assimetria entre o poder das fronteiras e a vulnerabilidade das pessoas que as atravessam. Em vários momentos, a imagem diz mais do que o texto poderia dizer, nomeadamente quando representa o impacto emocional e humano das fronteiras sem recorrer a palavras. Um exemplo notável de um excelente livro, quer enquanto objecto literário quer como livro perguntador e reflexivo, filosófico.











Sem Comentários