“Inteligência luminosa e uma forma particular de ver o mundo”. Foi desta forma que Madalena Alfaia, editora da Penguin, apresentou Vera Iaconelli, de quem a Companhia das Letras portuguesa publicou “Análise” – com o sub-título Notas do Divã -, um ensaio pessoal onde a autora brasileira cruza a narrativa familiar com as suas próprias aventuras no divã.
Nascida em São Paulo (Brasil), Iaconelli doutorou-se em Psicologia pela Universidade de São Paulo. Além de psicanalista é também colunista do jornal Folha de S. Paulo, bem como autora do podcast «Isso não é uma sessão de análise», por onde passaram figuras como a actriz Fernanda Torres ou o humorista Gregorio Duvivier. Para além de “Divã”, o primeiro livro seu publicado em Portugal, há outros como “Manifesto antimaternalista” ou “Felicidade ordinária” (Prémio Jabuti), que aguardam ainda edição nacional.
No FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos, Vera Iaconelli brilhou como uma estrela rock, capaz de partilhar episódios pessoais com desprendimento, explicar teorias complexas com exemplos de vida ou fazer humor com traumas ou inquietações, mostrando-nos o divã como um lugar seguro onde se pode dormir ou, quem sabe, ser o lugar que dá início à reconstrução de uma vida.

Acompanhámos a autora na sua dupla passagem por Óbidos – na entrevista de vida, com o jornalista Luís Ricardo Duarte; e na Mesa “Família”, ao lado do escritor João Pedro Vala -, e preparámos um best of de citações:
“Há um lado de desamparo na existência humana ao qual estamos todos submetidos, e não há pai, mãe ou coaching de performance parental que consiga resolver este dilema. É isso que nos faz humanos.”
“A psicanálise serve para quem quer criar uma relação artificial que envolve alguma radicalidade, onde se ouve o que não se quer ouvir sobre si mesmo. Implica muita coragem. É uma relação artificial e paradoxal, distinta da que podemos ter com um padre, um amigo ou um psicólogo.”
“Freud era pessimista no atacado e optimista no varejo.”
“A infância passa e o infantil continua. No ciúme, na inveja, no medo de ser humilhado, de não se ser reconhecido, na necessidade de se ter as coisas só para si, na necessidade brutal de se ser amado.”
“Trump vai destruir o mundo inteiro para ser amado. Um pouco de análise teria ajudado toda a Humanidade.”
“Há uma certa jornada de herói em quem se senta no divã.”
“Na sessão de análise estabelece-se um pacto civilizatório, em cima de um fundo comum, de um egoísmo radical”.
“No erro está algo da nossa verdade. Isso salvou-me de muita auto-crítica. Eu vivo errando.”
“Toda a literatura é baseada nesse lado desconhecido que nos ultrapassa.”
“A busca pela análise não foi uma busca por uma carreira. Foi sempre uma busca por me tratar, para elaborar o meu sofrimento. Fui sempre muito inconformada com ser infeliz, é algo que não aguento. Sempre procurei algo que me desse alegria de viver, prazer, uma reacção à melancolia familiar. A minha busca analítica foi essa. Foi o meu próprio processo analítico que me levou aos estudos.”
“O fim da terapia é quando o paciente descobre que o psicanalista não sabe quem ele é. Uma autonomia e um desamparo final, mas um desamparo constituinte.”
“Estou mais preocupada em fazer as perguntas correctas: «Quem eu estou?», em vez de «Quem eu sou?».”
“A gente torna-se pai e mãe e vira telhado.”
“Tem de haver um certo desejo de querer saber da vida do outro para se tornar psicanalista”.
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Fotos cedidas pelo FOLIO











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