É um ensaio? Um exercício de auto-ficção? Não, é o novo romance de Teju Cole que, uma vez mais, baralha os géneros literários e provoca mais um “Estremecimento” (Quetzal, 2025) ao leitor. Um livro político e anti-colonialista, que interroga com subtileza as ideias sobre arte e os traumas a ela associados, num momento onde “o presente é a única dimensão” – e a melhor forma de regresso.
No centro deste híbrido romance está Tunde, um afro-americano que trabalha como professor de fotografia num campus de renome da Nova Inglaterra. Alguém que, num fim-de-semana de aparente tranquilidade entre antiguidades, tentando colar um relacionamento amoroso cheio de fracturas, dá por si a recuperar as memórias das atrocidades coloniais que aconteceram naquele lugar.

Através de Tunde e das suas viagens, Teju Cole reúne uma colectânea de histórias, sejam contadas pela boca de desconhecidos ou arrancadas a letras de canções, onde está sempre presente a crítica a um país “construído com base num genocídio”.
Um livro que troca por diversas vezes as voltas ao narrador, seja através de um narrador que se dirige a um morto, de uma polifonia de vozes que traçam um retrato desencantado da Nigéria ou de um mergulho fascinante na música vinda do Mali, que poderia ter dado origem a um CD a acompanhar a edição deste livro. Mas nem só de anti-colonialismo se faz este “Estremecimento”, que olha também para temas como a extinção das espécies, a efemeridade da arte, a identidade e o privilégio, ou os maus tratos às mulheres. Mais do que um romance, “Estremecimento” é uma reflexão filosófica.











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