Escrita e ilustrada por Timothé Le Boucher, “Estes Dias que Desaparecem” (Devir, 2025) é uma intrigante, provocadora e negra novela gráfica sobre um quase adolescente que, a partir de uma certa altura da sua vida, se vê obrigado a alternar a vida com um outro “eu”, com quem vai partilhando o mesmo corpo em dias distintos, sem ficar com qualquer memória desses dias ausentes.
Esse homem é Lubin Maréchal, um atlético jovem de 20 anos que, poucas horas depois de um acidente circense em que bate com a cabeça no chão, começa a acordar todas as manhãs 48 horas depois do último dia em que viveu. Para as outras pessoas é como se Lubin continuasse ligado, ainda que lhe notem certas alterações estranhas na personalidade ou comportamentos pouco próprios do Lubin que conhecem.

Como bons diplomatas, os dois Lubin tentam viver o melhor possível com esta dissociação identitária cíclica, deixando um ao outro mensagens de vídeo com dúvidas, recomendações e indignações. Porém, aquilo que começa por ser uma co-habitação pacífica, capaz de mudar hábitos e crenças, desde cedo começa a apresentar fracturas. Sobretudo quando o alter ego de Lubin decide tomar conta do corpo durante períodos de tempo cada vez maiores, deixando Lubin entregue às migalhas do tempo, incapaz de experienciar na plenitude o amor, a amizade e o andar lento mas imparável do mundo.

Entre a ficção científica e a distopia tecnológica, no mergulho que faz na dualidade entre corpo e mente, Timothé Le Boucher confere a “Estes Dias que Desaparecem” uma dimensão que é também política, cultural, social e económica, questionando-o sobre a liberdade individual face ao colectivo, exposta através das palavras do advogado do diabo: “Qual é a personalidade mais útil à sociedade? O meu cliente tem uma carreira excepcional, relações de amizade saudáveis e uma vida familiar plenamente satisfatória. O percurso dele é um modelo de sucesso. E você? O que é que você tem feito? Uma vida sem futuro, alimentada por ambições fantasiosas. Vivendo à custa da sociedade e do dinheiro que realmente trabalham para o ganhar. Pensando bem, é você a personalidade parasita”. Se é o sonho que comanda a vida, Timothé Le Boucher consegue aqui conferir-lhe uma dimensão de pesadelo, questionando até que ponto a nossa vida nos pertence realmente.
Visualmente o livro é muito arrumado, com vinhetas onde os desenhos não arriscam a saltar das margens, desenhos esses que parecem ter uma costela mangá. As cores são algo esbatidas e os cenários pouco desenvolvidos, uma simplicidade gráfica que acaba por não afectar o bom argumento de Timothé Le Boucher – aliás, talvez até encaixe melhor neste mundo feito de pânico, frustração e falso controlo.











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