“Demorei cinquenta e cinco anos a voltar. Uma distância de apenas duas horas de avião. Passou-se tanto tempo… até eu voltar para casa”. Assim começa a ser contada, em “Erva” (Iguana, 2024), a história verídica de Ok-Sun Lee que, no Inverno de 1996, visitou finalmente a sua terra natal, como parte do programa «Seguindo Casos e Pessoas: Regresso das “Mulheres de Conforto” do Exército Japonês que ainda vivem na China», exibido pelo Canal SBS a 4 de Janeiro de 1997.
Em criança, Ok-Sun Lee foi vendida pela sua família e explorada como “mulher de conforto”, um eufemismo utilizado pelos militares japoneses para designarem as suas escravas sexuais, capítulo que permanece como um dos mais negros e chocantes da História (des)humana.

É a sua história que a sul-coreana Keum Suk Gendry-Kim conta em “Erva”, uma novela gráfica desenhada a preto e branco com uma sensibilidade desarmante, que nos faz recuar a 1934 e à cidade de Busan, três anos antes do início da guerra entre a China e o Japão.
O resultado é uma biografia imaginária, cruzando o relato na primeira pessoa com entrevistas sonhadas, proporcionando ao leitor uma poderosa – e muitas vezes silenciosa – experiência de leitura sobre a luta de uma mulher para recuperar o seu corpo, a sua dignidade e a sua vida.

Naquela que é uma obra-prima da banda desenhada – ao lado de novelas gráficas como “Maus” ou “Persépolis” -, Keum Suk Gendry-Kim recupera a participação do Japão na II Guerra Mundial, que envolveu a convocação de “homens, rapazes e estudantes coreanos para explorar a sua força de trabalho e também para mandá-los para a frente de batalha”, ou as muitas barbáries cometidas pelo país do sol nascente, tais como o Massacre de Nanquim – perpretado já depois de terminada a guerra.
O traço da ilustradora faz-nos viajar entre a comoção e a empatia, numa força narrativa que vai muito para lá das palavras. É fascinante – e requintada – a forma como desenha a Natureza, as árvores e os seus troncos, ramos e folhas, com traços que são muitas vezes selvagens e carregados de negrume, mas onde há sempre uma graciosidade comovedora. Preparem-se para ficar de coração partido.











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