Editada pela Fundação EDP desde o ano de 2018, a Electra consolidou-se como um dos projectos editoriais mais estimulantes para quem gosta de ler, como se dispusesse de todo o tempo do mundo, boas revistas. Uma publicação onde tanto se descobre um ensaio com a densidade de um “Finnegans Wake” – esse livro extremo de James Joyce -, debates com o fervor da Grécia Antiga ou portfólios visuais que nos lembram que há, por aí, uma exposição que não podemos mesmo falhar. Com uma forte vocação internacional e um pendor marcadamente interdisciplinar, esta publicação trimestral tem apontado em várias direcções: a crítica de arte, a filosofia, a literatura ou a análise política, tudo para decifrar um tempo em constante rebelião.
O Deus Me Livro conversou com José Manuel dos Santos, director da Electra, uma longa entrevista onde foi abordada a identidade estética da revista, o seu statement interdisciplinar e que olhou de forma mais demorada para três edições, dedicadas à Mentira, ao Livro e às Infra-Estruturas. Pelo caminho, ainda houve tempo de deixar uma sugestão para uma edição futura.

O primeiro número da Electra foi lançado em 2018, partindo de uma famosa citação do escritor Karl Kraus para dar nome ao dossier inaugural: “Nesta Grande Época”. De onde surgiu a ideia de criar um projecto editorial tão focado no ensaio e na reflexão crítica, isto num tempo dominado pela rapidez e com um gosto particular pelo efémero?
A Electra foi criada para habitar uma casa vazia num edifício ameaçado, a que chamam comunicação social. A nossa “grande época”, dominada pela velocidade e pela vertigem, pela fugacidade e pela frivolidade, pela simplificação e pela grosseria, não favorece o pensamento crítico, a criação original, a análise informada e a sabedoria sedimentada. É a esse pensamento, a essa criação, a essa análise e a essa sabedoria que a Electra quer der tempo e lugar nas suas páginas e no movimento que as leva de umas às outras. Gostaríamos que o tempo da Electra fosse mais o kairós (o tempo oportuno, qualitativo) do que o chronos (o tempo linear, quantitativo).
O grande historiador Fernand Braudel falou da história que corre para nós a passos apressados e da história que nos acompanha com passos lentos. A Electra não desconsidera aquela pressa, embora saiba que a pressa é muitas vezes aquilo que mais depressa passa, nem desconhece esta lentidão, porque sabe que a lentidão tem muitas vezes o nome de duração e de consequência. Podemos, assim, dizer que esta é uma revista que existe para ser aquilo que não havia e fazia falta. E esperamos que, por isso mesmo, se note nela, quando a lemos, uma forte, segura, feliz e impaciente (às vezes, até insolente) satisfação de existir.
Ao longo de 32 números – o mais recente publicado durante a Primavera -, a Electra tem esbatido as fronteiras entre as disciplinas artísticas, o pensamento humanístico e a ciência. De que forma esta abordagem multidisciplinar se tornou a imagem de marca da revista – ou, como diriam mais a norte da Europa, o seu statement?
Foi já publicada, entretanto, a Electra 33, a edição de Verão, cujo dossier é sobre “A psique”, no qual que se fala da psicologização obsessiva da vida e do mundo contemporâneos, em todos os seus domínios, valores e acções. Este tema liga-se a temas de outros dossiers da Electra, como “O narcisismo”, “O estado da democracia”, “A fama”, “Memória e esquecimento”, “ Identidade(s)”, “O excesso”, “A vida ou a obra?”, “O corpo” ou “ O medo”. Se fizéssemos o dossier de todos estes dossiers, obtínhamos o planisfério das tendências, ímpetos, emoções, frustrações e loucuras que povoam os nossos dias e as nossas noites.
A aproximação dos territórios do saber e a intersecção das disciplinas que o configuram parece-nos ser um modo necessário para criar e transmitir conhecimento. E afigura-se-nos também ser um método indispensável para compreendermos o nosso tempo e o nosso mundo. Entre a especialização hermética e a generalização estéril, a Electra procura, em cada número, um caminho que nos leva a um lugar onde as ideias têm a ousadia de existir e de se comunicar com a complexidade (ou a profundidade), que evita a falsificação e com a clareza (ou o esclarecimento) que impede a confusão. Esta é uma maneira de lutar contra a moda das opiniões e das percepções sem consistência, das conjecturas e dos juízos sem fundamento.

Por falar em statement, a Electra conta também com uma edição em inglês, apontada ao mercado internacional. Que percepção têm do alcance e da recepção que a revista tem tido fora de portas?
A Electra é uma revista internacional (e cosmopolita), assumindo esse seu propósito como uma condição e um programa. Além de poder ser comprada online, encontra-se presente, fisicamente, em muitos países da Europa, nos Estados Unidos e no Brasil, estando aí disponível em bancas e em livrarias de prestígio. Têm-nos chegado, com frequência, manifestações de interesse e mensagens de reconhecimento, com efeitos positivos e resultados concretos.
Dou dois exemplos recentes. A Electra foi convidada este ano a estabelecer uma pareceria com o Estado da Arte, a plataforma/ suplemento cultural do jornal de maior circulação do Brasil, o Estado de São Paulo (Estadão), que já está a ser regularmente desenvolvida. A Electra foi seleccionada para integrar “The Printed Vision”, na feira internacional Haute Photographie Rotterdam , por ter sido considerada uma das melhores revistas do mundo na área da Arte, Fotografia, Design e Moda. Temos, contudo, consciência de que dar a conhecer globalmente, entre milhares de outras que se publicam e circulam, uma revista cultural é uma tarefa demorada e insistente, mas proveitosa e frutífera.
O design gráfico e a dimensão visual saltam à vista, um pouco como acontecia com a saudosa revista K. Como é o processo de articulação da palavra escrita com a escolha de portefólios, artistas e imagens?
Trata-se de um trabalho muito exigente e cuidadoso feito, na primeira linha, pelo nosso editor de imagem ( K. Desbouis) e pelo nosso designer (João M. Machado). Mas é um trabalho que envolve toda a equipa, coordenada pela direcção ( eu e o António Soares) e pelo editor (António Guerreiro). Passamos horas a pensar visualmente a revista, escolhendo artistas, obras e imagens, e confirmando a sua adequação ao que queremos. Um dos nossos lemas diz: Uma revista que se lê e que se vê. Esta frase não tem apenas uma intenção publicitária – sintetiza um programa editorial.
Na época do digital, a Electra faz do seu corpus physicus uma presença material e uma imagem de marca. Do tipo de papel ao corpo de letra, dos formatos às cores, das capas aos portfólios, tudo é pensado e escolhido para dar sentido ao sentido que queremos alcançar. Acreditamos que a substância dos textos se valoriza com a forma das imagens e que o discurso verbal se acrescenta e se amplia com o discurso visual.
Se olharmos os 33 números da Electra, vemos que tivemos o privilégio de poder contar com a colaboração de alguns dos mais respeitados e influentes intelectuais do nosso tempo, mas contámos também com o contributo de alguns dos mais prestigiados artistas contemporâneos. Esta aliança está na nossa génese e confere à revista uma identidade única e uma distinção reconhecida.
A revista Electra é um projecto cultural sem fins lucrativos, editado pela Fundação EDP, razão pela qual não inclui anúncios publicitários. Seria possível publicar uma revista deste género em Portugal sem ser desta forma?
Penso que não seria fácil. Ao tornar possível este ambicioso projecto editorial e a sua continuidade, permitindo uma relação qualidade-preço muito vantajosa e sedutora para o leitor, a Fundação EDP presta um serviço ímpar à cultura, ao pensamento, à arte, à educação, à qualificação das pessoas. A Electra é, actualmente, uma das marcas mais inconfundíveis e mais valiosas da Fundação EDP.
Que perfil tem dos leitores da Electra? Serão apenas académicos e nerds ou há, também, curiosos e leitores mais descontraídos?
As informações que temos permitem-nos dizer que suscitamos a atenção de leitores com interesses culturais e com vontade de compreender melhor o mundo e de aumentar os seus conhecimentos. Atraímos também leitores com uma curiosidade activa, que gostam de descobrir coisas novas (ideias, imagens, informações, reflexões, relações, vínculos). Contamos com leitores fascinados pela beleza que, como disse Dostoievski, pode salvar o mundo. E temos ainda leitores que gostam de pensar, de sentir, de imaginar, de experimentar e de viver diferentemente, alargando a experiência e o horizonte. Pelo que sabemos, existem leitores que lêem a revista com uma aplicação ordeira e sistemática, como quem lê (ou estuda) um livro, e existem outros que a lêem impulsivamente, procurando o prazer da desordem e do encontro imprevisto.
Neste universo múltiplo e diverso de leitores, os jovens têm uma parte muito importante e promissora. Mas temos leitores de diferentes idades, estatutos culturais, situações económicas e geografias varidas.
Como é trabalhada a relação de proximidade e o diálogo contínuo da Electra com os seus assinantes e leitores?
Temos canais permanentes, nomeadamente digitais, de contacto e comunicação. Promovemos também iniciativas de encontro (lançamentos, conversas, conferências, debates, feiras do livro, exposições artísticas, participação em festivais e em outros acontecimentos culturais, etc.). Espero que esta entrevista também reforce a nossa ligação aos leitores, antigos e novos. Isto é: espero que contribua para uma maior divulgação da Electra e que isso nos traga novos leitores. Temos consciência de que há ainda um número potencial de leitores que não conhecem ou conhecem mal a revista e que têm de ser alcançados e conquistados.

Gostaria que olhássemos brevemente para 3 números da Electra: o número 32, que olha de forma transversal para “As Infra-Estruturas”, e dois outros que por aqui consideramos marcantes: “A Mentira” e “O Livro”. Comecemos pelo número 25, que dedicou o seu dossier principal a “A mentira”. Num momento em que a desinformação, as fake news e a manipulação digital dominam o mundo real e o digital, como foi pensada a articulação deste tema com a política e as artes?
Um dos nossos propósitos editoriais e culturais é fazer um retrato, ou desenhar um mapa, ou tornar audível uma voz, desta grande época, para usar a designação irónica de Karl Kraus que antes citou. A mentira, que, de Maquiavel a Oscar Wilde, de Kant a Henry James, de Nietzsche a Borges, dos sofistas a Wittgenstein, de Platão a Heidegger, de São Tomás de Aquino a George Orwel, foi longamente um tema da filosofia, da política, da literatura e da arte, assumiu, no nosso tempo, a função de um operador universal, que determina, condiciona, domina e avilta a nossa vida individual e colectiva. Com a mentira, engana-se, burla-se, manipula-se, desresponsabiliza-se, lucra-se, explora-se, furta-se, oprime-se, calunia-se, mata-se. A produção da mentira passou a ser uma indústria, um negócio, uma tecnologia, um sistema, um poder, uma moral (imoral).
Com as redes sociais e as plataformas digitais, a presença da mentira tornou-se avassaladora, ameaçadora, perigosa. No dossier que dedicámos a “A Mentira”, contando com o contributo de autores com obras de referência sobre o tema, procurámos identificar a nova situação ontológica da mentira no mundo contemporâneo, a sua genealogia e a sua progenitura, o seu feroz e alarmante movimento a caminho do futuro. Aí, a pós-verdade põe perguntas às quais ensaiámos algumas respostas.Este é um tema que não se esgotou neste dossier e que tem ressurgido e vai ressurgir noutros artigos da revista, em ligação com outros temas e outros tópicos, formando todos uma assustadora constelação no céu tempestuoso do nosso tempo.
O portfólio visual desta edição destacou a obra de João Penalva – com a publicação de fotografias inéditas -, tendo a secção “Figura” olhado para a pintora norte-americana Georgia O’Keeffe, que utilizou o seu guarda-roupa – e o que vestia – como uma extensão da sua identidade artística e política. Como dialogam estes conteúdos visuais e biográficos com o tema da mentira e da construção da imagem?
A Electra dedica quase metade das suas páginas a um assunto tratado longamente, com profundidade e extensão, num dossier. Mas cada número não se esgota nesse dossier, pois não se trata de uma revista com edições monotemáticas. Além do dossier, chamado “Assunto”, tem várias outras secções: Portfólio, Figura, Registo, Metropolitano (sobre temas urbanos), Passagens, Primeira Pessoa (uma grande entrevista), Livro de Horas (diário), Arca de Noé, Vista de Delft, Dicionário das Ideias Feitas). Acreditamos que esta diversidade amplifica, expande, revigora e rejuvenesce a revista, dá-lhe fôlego e fluidez, concede-lhe nexo e movimento, tornando-a mais eficaz e atraente.
Essas outras secções participam também do projecto de dar uma imagem à nossa época. E, em muitas ocasiões, apercebemo-nos da existência de um diálogo – não procurado intencionalmente, mas encontrado afortunadamente, num daqueles acasos objectivos de que falavam os surrealistas – entre vários textos e imagens das variadas secções da revista. Na edição de que fala, o fio que corre do Assunto para a obra dos dois artistas mencionados, faz-nos ouvir as palavras, tão pessoanas, do escritor, desenhador e cineasta Jean Cocteau: A arte é uma mentira que diz sempre a verdade.

Para além da mentira, assinala-se o centenário da morte de um gigante chamado Franz Kafka. Qual a importância de revisitar a burocracia e as engrenagens do poder descritas por Kafka?
Já sabíamos que Kafka foi o imprudente profeta do século XX, mas agora estamos a aprender que é também o violento vidente do século XXI. O seu aforismo narrativo sobre os leopardos e os vasos sagrados do templo resume, em palavras de uma nudez fatídica, o tempo a que chamamos, porventura com excesso de confiança, nosso. Dos diários aos contos, dos romances às parábolas, todas as palavras escritas pela letra leve e entomológica de Kafka ressoam como ecos soltos e soletrados nas paredes assombradas do castelo sem ponte levadiça do nosso estar no mundo, nesta época extenuada em que as engrenagens da infâmia voltaram a rodar com maior velocidade, vigor e desvergonha.
Os artigos que dedicámos a Kafka, nessa edição que menciona, dão-nos o orgulho de podermos verificar que foi possível falar do autor de “O Processo” e da sua obra sem repetir os lugares-comuns, as palavras gastas e as ideias feitas que quase sempre ocupam o espaço em que se escreve sobre ele e sobre ela. Na sua sóbria soberania verbal, ao mesmo tempo límpida e enigmática, Kafka abre-nos os olhos com uma violência que nos faz ver – vertiginosamente, fugitivamente, brutalmente – as nossas acrobacias de funâmbulos no arame trémulo da vida.

O número 28 escolheu como tema central “O Livro”. Qual foi o principal repto lançado aos autores para pensar o futuro e a memória associada ao objecto livro, cuja extinção foi já anunciada por diversas vezes – um pouco como aconteceu, erradamente, com o vinil?
Mais do que o risco de o livro acabar (embora também disso se fale), esse dossier pensa as metamorfoses e mudanças fundamentais de que o livro e a leitura têm sido sujeitos e objectos. Fala da indústria editorial, da mercantilização do livro, da dificuldade de ler, do défice de literacia, das bibliotecas reais e virtuais, do ocaso da crítica, das redes de leitores e das redes sociais. O livro fez uma civilização e é com os meios que ele e ela nos deram e nos dão que podemos pensar os sins e os nãos do seu futuro.
Roger Chartier – sob a forma de entrevista – e Robert Darnton falam sobre o peso da censura. De que maneira os livros continuam a ser “vigiados” nos dias de hoje?
O francês Roger Chartier e o americano Robert Darnton, autores de várias obras indispensáveis e reconhecidas como tal no mundo inteiro, são dois nomes maiores da história do livro, entendendo-se a história como aquilo que já está a configurar o nosso presente. Tê-los como colaboradores do dossier da Electra sobre “O livro” concedeu-nos o privilégio e a fortuna de podermos ter acesso a dois dos pensamentos mais fortes e sólidos sobre um dos centros mais incandescentes da nossa cultura.
Neste dossier também se falou muito de censura. Gustave Flaubert disse um dia que a estupidez é de todos os tempos, mas que cada tempo tem a sua estupidez – e a este tema, com a interrogação que transporta, dedicámos o dossier do número 2 da Electra. O mesmo podemos dizer da censura: a censura é de todos os tempos, mas cada tempo tem a sua censura – e é por ela que cada tempo também se define. Provinda de várias origens, às vezes cartograficamente de lugares opostos, e exercida em nome de várias causas e pretextos contrários, a censura do nosso tempo é porventura mais insidiosa e mais sinuosa, mais venal e mais viral, mais hipócrita e mais desnorteada, do que as censuras de outros tempos. Mas, tal e qual acontecia com muitas censuras do passado próximo ou remoto, também a do nosso tempo está cheia de boa consciência, de preclaros propósitos, de enunciados edificantes e proclamatórios, de argumentos silogísticos perfeitos, de convenientes e oportunos álibis.

Um dos pontos altos desta edição é, sem dúvida, a entrevista a Emir Kusturika, conduzida por Andrea Prada Bianchi durante uma viagem de carro. Um momento algo rock and roll.
É uma grande peça de jornalismo cultural e de jornalismo tout court. Nota-se que se gerou uma curiosidade mútua, motivadora e maliciosa entre o entrevistador e o entrevistado. Podemos dizer que estiveram bem um para o outro. Provavelmente, é esse o segredo de uma boa entrevista-reportagem.
Curiosamente, a Figura em destaque neste número vem igualmente da sétima arte: Jean-Luc Godard, revisitado por Francisco Noronha. Foi intencional esta forte presença cinéfila num número dedicado ao Livro?
Não se pode falar hoje do livro esquecendo o écran em que, ao lado, as imagens dos filmes passam no cinema e na televisão. Ao fazermos esta edição, em que o livro e o cinema estão presentes e próximos, talvez estivéssemos a pensar que, para Godard, o cinema não é uma estação de comboios, mas um comboio que vem em sentido contrário.

O número 32 debruçou-se sobre “As infra-estruturas”, focando-se no seu poder global, logístico e nas plataformas digitais. Por que razão sentiram a necessidade de escolher um tema aparentemente mais técnico para se tornar no centro do debate cultural e geopolítico da revista?
No nosso tempo, os temas mais técnicos são muitas vezes os temas mais filosóficos (basta vermos a citação de Heidegger que é comentada nas “Passagens” desta edição), mais políticos (quem pode ignorar os tecnobilionários e as suas posições políticas?), mais culturais, até mais artísticos, ou mesmo mais religiosos (chega analisarmos a recente encíclica do Papa sobre a Inteligência Artificial). Se os esquecermos, estamos a esquecer o essencial, a aproximar-nos do incompreendido e não raro a aceitar o inaceitável. As infra-estruturas são, como muito bem diz, uma das sedes do poder global e o dossier que fizemos sobre elas mostra bem que, como o sonho no poema “Pedra Filosofal”, de António Gedeão, hoje, as infra-estruturas comandam a vida. E são uma nova pedra filosofal.

Neste mesmo número, a secção “Primeira Pessoa” contou com a realizadora Hito Steyerl, e o portfólio destacou Anna Maria Maiolino, uma artista de origem italiana que vive e trabalha no Brasil. Como se cruzam estas perspectivas estéticas com o debate sobre as infra-estruturas e o mundo globalizado?
São duas artistas que, pelas suas obras, estão no núcleo duro do debate contemporâneo sobre a relação entre fazer e pensar, entre matéria e imagem, entre tempo e espaço, entre cultura e política, entre indivíduo e sociedade, entre planeta e poder, entre preservação e renovação, entre autenticidade e proliferação. As duas deitam ao mundo, cada uma com a sua maneira de pensar e de criar, um olhar inteligente, desassombrado, feminino. Ambas sabem, como disse Sophia de Mello Breyner Andresen, que a cultura é uma educação para a consciência do mundo. Neste caso, eu acrescentaria: é uma educação do olhar para a consciência do mundo.

Para terminar, gostaria que nos falasse sobre o futuro da Electra, seja a curto prazo – levantando o véu sobre o próximo número – ou numa perspectiva de longo alcance. Por aqui, gostaríamos de ver um número dedicado à banda desenhada – até porque há uma heroína com o nome de… Elektra.
O futuro da Electra é o futuro do seu passado e do seu presente. Podemos dizer que aquilo que fizemos até aqui contém em si uma história. E transporta a responsabilidade e o dever – que é também um prazer – de continuarmos, acrescentarmos, aperfeiçoarmos, renovarmos, descobrirmos, criarmos. Na Electra, e como para alguns filósofos, a estética e a ética são uma e a mesma coisa. A banda desenhada é um tema que faz falta num olhar sobre o nosso tempo e por isso vai certamente aparecer com maior visibilidade. Agradecemos a sugestão aqui dada sob a forma feliz e fervorosa de desejo.
Os dossiers dos próximos números vão ser dedicados a temas ao mesmo tempo de uma grande contemporaneidade (no sentido de Agamben) e de uma grande intempestividade (no sentido de Nietzsche). O que podemos dizer é que queremos sobressaltar (provocar o encontro com um pensamento mais preocupado) e sobrelevar (levar a um ponto de vista mais alto e mais vasto) o leitor. Direi melhor se disser: queremos tornar o leitor mais livre, mais curioso e mais atento, pois a sua liberdade, a sua curiosidade e a sua atenção (temas já tratados na Electra) são-nos a garantia de que a revista que fazemos chega às mãos daquele para quem é feita. Desculpe-me por não lhe dizer mais sobre os próximos números, mas as revistas são como as pessoas – o que há de melhor nelas é o mistério, essa clara obscuridade que brilha, intriga e atrai como um astro na nossa noite interior.











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