Nas ruas do Rio de Janeiro, tal como noutras metrópoles de vários países do mundo, sobrevivem inúmeros jovens a quem uma vida de violência se afigura o único caminho disponível. “Toda Fúria” (ler crítica) espelha bem essa realidade brutal, levando-nos a entrevistar o autor, Tom Farias – ele próprio proveniente de uma família negra e pobre dos subúrbios, tal como o seu protagonista –, para sabermos mais sobre o desenvolvimento desta obra que pode ser descrita como uma crónica social.

O que pode contar-nos sobre o processo de desenvolvimento de “Toda Fúria”? Até que ponto Caniço e as restantes personagens se baseiam em figuras reais?
Não há figuras reais, há o espelho da realidade. A brutalidade da desigualdade social – que favorece o racismo em todo mundo, especialmente no Brasil, pelo seu longo histórico de escravidão -, dá às narrativas de “Toda Fúria” verosimilhança com a realidade nua e crua que se vive, tanto na América quanto na Europa. Mas eu também empresto ao romance a minha vivência urbana, de jovem criado nos subúrbios, de família pobre e negra. “Toda Fúria” é o espelho de uma sociedade que reprovamos, que não queremos como vizinha, que não queremos provar dentro da experiência de nossas vidas.
Este livro relata uma realidade bastante violenta. Como avalia o poder da literatura para transformá-la?
A verdade é dura quando pensamos num país como o Brasil – dividido entre ricos e pobres, entre privilégios e os desiguais. Não há violência no livro se pensarmos na violência da toga, da Magistratura, da política, se pensarmos no Parlamento e nos governos que pouco ou nada fazem por essa população. Há, em síntese, o instinto de sobrevivência e, por dentro desse instinto, que parece brutal, violento, selvagem e primitivo, uma história de amor à vida, de alguém que, mesmo do esgoto, enxerga uma flor no meio do ambiente sórdido dos bueiros e da podridão.
São apontadas instituições, como os reformatórios, que não cumprem as suas funções. Que reformas pensa que devem ser instituídas?
Não falo do lugar de especialista. Este livro é uma crónica social sobre uma cidade – Rio de Janeiro – que pode ser um espelho do mundo, um aviso e/ou alerta. As instituições correcionais nada corrigem porque não têm investimento ou não se propõem a isso. Muitas vezes são depósitos de jovens sem opções. A culpa não é dos jovens, mas da sociedade que os marginaliza, que os coloca à margem. Instituições são depósitos para confinamento e limpeza do ambiente social, daqueles que ninguém quer ver no seu mesmo espaço de circulação.

A personagem da Robertinha conta uma história chocante de discriminação racial, que sofreu quando estava prestes a dar à luz o filho. Enquanto autor negro, sente esse tipo de discriminação no seu quotidiano? Sofreu alguma experiência que o tenha afectado e que deseje partilhar?
A realidade de Robertinha é conhecida como “racismo obstétrico”, a crença de que as mulheres negras são resistentes e suportam tudo, com menos ou nenhuma anestesia. E isso não afecta apenas as mulheres negras pobres, do subúrbio, da periferia, das favelas. O corpo negro, no Brasil ou em qualquer outro lugar – em Portugal também –, chega primeiro para se denunciar como delinquente, como ameaçador, como possuidor de males e despossuído de protecção. O caso de Robertinha é um alerta de que tudo isso continua acontecendo, à nossa vista, sem que ninguém se comova ou tome providências.
O que gostaria de modificar na sociedade brasileira? O que jamais modificaria? E no resto do mundo?
Se fosse modificar alguma coisa na sociedade brasileira, começaria pela hipocrisia e o racismo, ambos males históricos, arraigados, que adoecem o Brasil e afrontam a dignidade humana. Algo que eu não mudaria? Penso que o clima e a paisagem, os biomas que constituem este país.

Se fosse um dos passageiros do comboio onde Caniço entra, no início da história, o que lhe diria, se pudesse?
Não conseguiria dizer-lhe muita coisa. Caniço, como todo o jovem de sua idade e do seu tempo, é o dono da verdade. E com a verdade de alguém não se brinca, não se discute.
A acção de “Toda Fúria” possui um carácter muito “cinematográfico”. Como encararia uma adaptação do livro ao cinema?
É algo que, efectivamente, não pensei ter escrito. Quis contar uma história, que foi tomando seu próprio rumo e vida, falando por si. O desespero é algo eléctrico, electrizante, chocante para quem o sofre ou a ele assiste (ou lê, como é o caso).
Haverá uma sequela para a história de Caniço, que agora é Capitão? Em caso afirmativo, que informação pode adiantar-nos?
Não há nenhum projecto de continuidade da história do Capitão Caniço. O personagem, como o próprio submundo, é um ser único, de história única. Pode ser que morra com sua patente, pode ser que não. Melhor dizendo: o tempo o dirá.
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Foto: André Godoy











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