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Entrevista: Natalia Timerman

Por Pedro Miguel Silva · Em 25/07/2025

“A morte me diz que não há mais abraço do pai, que nunca mais haverá; a morte é a morte do cheiro, nunca mais, da presença, do tempo. A morte sussurra o não, minha insuficiência; embora tenha sido tanto, foi tão pouco, pai. É sempre tão pouco perto do nunca mais”. Descobrimos estas palavras em “As Pequenas Chances” (Tinta da China, 2024), livro da escritora Natalia Timerman onde a morte é o alimento para uma história sobre a vida – e que, a partir de uma história individual, acaba por contar um pouco a história de todos nós. Um livro onde cabem biografia, reconstituição histórica e uma ficção nascida de retalhos próprios e alheios, fazendo-nos olhar de outra forma para as pequenas chances que a vida vai oferecendo pelo caminho. Estivemos à conversa com a autora na última edição do Folio.

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Cabe a Annie Ernaux, autora a quem nas notas finais agradece “a ideia de família”, a abertura de “As Pequenas Chances”: “História familiar e história colectiva são uma única coisa”. De que forma é este livro tão pessoal uma história colectiva?

A epígrafe é a chave para desvendar o epílogo, que não quero detalhar para não estragar ao leitor a descoberta final. “As Pequenas Chances” é um livro sobre a história de uma morte, a busca pela história de uma família. Conforme o escrevia fui percebendo que, ao falar da minha família e dessa busca, falava de algo que não era só meu. Parece quase já um cliché dizer isto, mas quanto mais particular era mais universal se tornava. Sendo a morte de uma pessoa importante num círculo familiar, acaba por dizer respeito a muitas famílias. Falando sobre a emigração judaica, esta foi uma história sobre a qual nunca demonstrei um interesse especial, algo que mudou após a morte do meu pai quando percebi que já não tinha a quem perguntar. Seria através da história de outras pessoas que poderia vir a conhecer a minha própria. Uma história cheia de lacunas, que decidi não preencher mas tentar entender através de um cruzamento entre o familiar e o colectivo.

Para além da travessia nunca completa do luto, há um mergulho na tradição e na história judaicas. Primeiro – e de forma algo ténue – através dos rituais fúnebres, que servem de almofada emocional. O verdadeiro interesse surge depois, através da história familiar e da busca pelas origens.

A ideia do livro surgiu da necessidade de sistematizar um conhecimento que não tinha mas que, ao mesmo tempo, era algo perto do qual tinha crescido. Nunca soube que essa proximidade me tinha estruturado tanto, até ao momento de me ter visto amparada por rituais que assumia não me dizerem respeito. Tentar entender esses rituais fúnebres tinha a capacidade de me distrair da dor que estava a sentir, mas o judaísmo acabou por se revelar um verdadeiro amparo. Não como algo que me ligasse a Deus, mas às pessoas que vieram antes de mim – como uma cadeia humana que percorreu o tempo até aos dias de hoje. O livro fala muito dessa cadeia, instaurando a ideia de um ciclo – até pela sua própria forma.

Essa ligação é sempre uma ligação crítica, isso está bem expresso no livro. O encontro com o Judaísmo não terá representado necessariamente uma concordância.

Nunca poderia ser totalmente não crítico, até porque nem sei sequer se acredito em Deus. Mas tenho descoberto muitas formas de se ser judeu, foi uma das coisas que achei bonitas na escrita deste livro e da repercussão que teve no Brasil. Muitos judeus vieram falar comigo e percebi que ser judeu é, mais do que uma religião, uma identidade, que pode assumir múltiplas formas. Foi algo que fui descobrindo ao longo do livro e dos seus desdobramentos.

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Reencontrou-se com o judaísmo ao escrever “As Pequenas Chances”?

Sim, mas não me considero mais ou menos judia depois de ter escrito o livro. Há muitas coisas que continuo a questionar, mas essas dúvidas fazem parte do meu modo de ser judia. Consegui essa incorporação, sem que isso signifique que seja menos judia. A minha mãe era – ou é – ortodoxa. Está viva mas tem Alzheimer, e não consegue mais seguir os rituais judaicos. Ao longo da vida, afastei-me da religião enquanto ela se ia aproximando. Senti mesmo uma incredulidade para com esse Deus, que fez com que uma fiel tão devota tenha uma doença tão triste que a impede de seguir os rituais. Racionalmente, a religião não faz sentido nenhum. A questão é para mim mais primordial, no sentido etimológico de re-ligação. Escrever este livro foi uma re-ligação com o judaísmo, mas sobretudo com a religião que me re-liga à humanidade: a Literatura.

Uma dessas tradições – rasgar a roupa que se usa como uma armadura durante uma semana e deitá-la fora após a Shivá – aponta para o lado material do luto, num prenúncio do que “sentiremos ao lidar com os objectos que ficam depois que alguém morre”. Fala depois da “dolorosa inutilidade dos objectos”, mas é um objecto que acaba por por ser decisivo nesta história de descoberta, na qual a história continua a ser contada por alguém que já partiu. O lado material é decisivo para a preservação da memória, apesar da sua por vezes aparente inutilidade?

Todo o livro é sobre a morte, mesmo que não fale dela. O próprio objecto-livro, que revela as palavras do autor na sua ausência, é um eco do que foi, é, e será a morte. Não tem como um objecto com esse simbolismo ser inútil, ainda que a grande utilidade da literatura seja precisamente a de não ser útil num mundo já tão utilitário. O livro – o objecto – referido em “As Pequenas Chances” é algo que eu achava macabro, sobre o qual tinha até uma certa aversão, mas que de repente se tornou uma preciosidade. Foi uma chave, uma peça importante para descobrir muita coisa, até mesmo a relação do cemitério e da morte com a memória. O quanto a data e o local do nascimento de uma morte nos fala da trajectória de famílias inteiras, e até mesmo do próprio cemitério: a demarcação da cidade ao longo do tempo, mostrando-nos os seus limites. Um objecto que parecia inútil mas que se revelou fundamental.

E que esteve quase para acabar num caixote, salvo à última hora por alguém que na altura se interessou mais.

Foi um acaso. Mas a nossa história – e a história deste e de outros livros – é feita de acasos. Só estamos vivos por acaso. Sou brasileira por acaso. Penso na história da emigração judaica e de todas as emigrações da humanidade, e penso que seria pouco provável estar viva num outro cenário. É o tal “milagre de existir”, como me disse o escritor Hugo Gonçalves na bienal de São Paulo. São esses acasos que fazem com que um livro exista, com que uma vida exista, uma ideia que atravessa “As Pequenas Chances”.

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Em tempos onde impera a auto-ficção, “As Pequenas Chances” é de alguma forma um objecto híbrido, que mistura biografia, reconstituição histórica e uma ficção nascida de retalhos próprios e alheios – qualquer coisa como uma ficcão escondida numa aparente imagem de auto-ficção, cujos andamentos vão tratando de desvendar. Como foi montar esta história em três actos, tão diferentes entre si?

Não me recordo de quem disse isto: uma gota de ficção mancha tudo de ficção. O facto de haver ficção no meu livro torna-o uma ficção. É um romance, com elasticidade suficiente para comportar ensaio, autobiografia, uma ficção que se assume a si mesma. Gosto de brincar com isso. É uma ficção onde encontramos detalhes autobiográficos e outros inventados como autobiográficos, estou justamente a brincar com isso. Tal como todo o livro fala de morte, todo o livro fala de si mesmo, e este é um livro que fala sobre a literatura e aquilo que cabe num romance. Na primeira parte, o mergulho na dor do luto era tão forte que entendi que, para que tanto eu como o leitor pudéssemos respirar, os textos ensaísticos sobre os rituais judaicos, mesmo não saindo do tema, teriam de ser um descanso dessa dor. Na segunda parte dá-se um cruzamento de viagens e de tempos. A história da minha irmã é biográfica, aconteceu mesmo. Enviou-me áudios que fui transformando num registo de terceira pessoa, o mais ficcional possível. A terceira parte é uma outra viagem, num outro registo de tempo. Cada parte foi-me pedindo algo diferente, que tentei escutar como pude.

Há, também, uma homenagem a todas as mulheres, mas sobretudo às mulheres cujos nomes foram silenciados, “um silêncio que grita tão alto, o da origem das mulheres, essas minhas ancestrais”.

Pensei assinar este livro com o nome da minha mãe, o que faria todo o sentido, mas como já era conhecida como Natalia Timerman acabei por não o fazer. Na altura representou um dilema, até porque o nome era do meu avô e não da minha avó. É muito mais difícil seguir o rastro das mulheres para descobrir uma genealogia, foi o que percebi com a escrita deste livro. No relato do parto do livro, que surge no final do livro – posso falar porque não é a grande revelação -, convoquei todas essas mulheres cujo nome desconhecia. O título “As Pequenas Chances” veio já depois de o livro estar escrito, esteve para se chamar “Depois”. O meu editor disse-me que não era um bom título, pediu-me para procurar outro, o que acabou por acontecer a partir do epílogo. É uma ideia importante no livro. A minha mãe aparece muito pouco no livro – até porque vai ter o seu próprio livro -, mas acaba por nomear o livro numa passagem muito simbólica e importante. Foi um livro escrito nas pequenas chances, que o pouco que sei me deu e a ficção também mo dá. Mas não quis que a ficção preenchesse as lacunas, apenas que as apontasse deixando-as intocáveis. São as pequenas chances de construirmos a nossa história, de encontrarmos uma direcção. Gosto também do diálogo que estabelece com “As Pequenas Virtudes”, livro da Natalia Ginsburgh que fala de coisas que importam e que eu admiro tanto.

“Sempre achamos que haverá tempo suficiente para as perguntas mais importantes”, escreve a certa altura. Quais foram as perguntas mais importantes que ficaram por responder?

Nossa, são tantas. Talvez esta: “Pai, que você achou do meu livro?”. Uma pergunta impossível, porque este é um livro que só foi possível pela sua ausência. Mas é algo do domínio da morte: mesmo que tenhamos feito todas as perguntas, ela instaura essa insuficiência. A morte fala do fim de uma pessoa mas também do nosso próprio fim, da nossa limitação quotidiana. Encarar a nossa mortalidade é o único jeito de se viver, aproveitando todas essas pequenas chances.

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Fotos: Luísa Velez

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Pedro Miguel Silva

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