Da felicidade nascida de um projecto de futuro a dois, à vertigem da queda nas profundezas do desalento provocado pelo fim abrupto de uma relação, Natalia Timerman desvela, em “Copo Vazio” (ler crítica), os meandros da mente de uma mulher que se esforça por compreender o abandono que sofreu.
Nesta entrevista, a autora interroga-se acerca da persistência do sofrimento amoroso, num mundo onde “a internet e as redes sociais mudaram drasticamente nossa relação com o tempo e com a espera” – além de nos falar acerca das suas fontes literárias de inspiração e da atracção antiga para o mundo da literatura, que concilia com uma carreira na área da psiquiatria.

Tem um percurso académico interessante: é médica psiquiatra, mestre em psicologia e doutoranda em literatura. O que a atraiu para a literatura em geral, e para o seu estudo académico, em particular?
A literatura veio antes: o desvio foi a medicina. Eu desde criança queria ser escritora, mas, por influência do meu pai, que era médico, cursei medicina. Acabei me encantando pela psiquiatria, mas restava sempre uma angústia de fundo, que me avisava que eu ainda não havia chegado no meu lugar. Com vinte e poucos anos, comecei a ensaiar escrever, mas nada ia muito para frente. Meu primeiro livro chegou por via da psiquiatria: é o “Desterros”, um desdobramento do meu trabalho em um hospital penitenciário e também do meu mestrado em psicologia. O doutorado – que concluí em maio deste ano – foi mais uma maneira de chegar perto dos livros.
Será correcto deduzir que a sua formação profissional de base ajuda na construção das personagens? Como se processa a sua escrita? Concebe um enredo e depois povoa-o com personagens, ou pensa primeiro numa personagem e depois cria um enredo, ou faz algo totalmente diferente?
No começo da minha vida de escritora, eu me ressentia um pouco com ser reconhecida como uma escritora-psiquiatra. Queria que me reconhecessem só pela literatura. Aos poucos, entendi que uma pessoa escreve com tudo o que é, e que a especificidade da minha voz se nutre do fato de eu ser psiquiatra. Escrevo cada livro de um jeito: “Copo Vazio” nasceu da personagem, ou melhor, de sua dor; “As pequenas chances” era a história de uma morte que precisava ser contada.
O título “Copo Vazio” estabelece logo à partida uma ligação a Clarice Lispector. Até que ponto esta autora a influencia? Que outras fontes de inspiração gostaria de apontar?
Clarice Lispector é uma influência tão forte que me esforço para me afastar dela. Outras leituras foram importantes, de vários períodos diferentes, e meu desafio era investigar como contar uma história já tão repisada na literatura – uma história de abandono amoroso – com o prisma de hoje. “Madame Bovary”, de Flaubert, “A mulher desiludida”, de Beauvoir, “Dias de abandono”, de Ferrante, “Razão e sensibilidade”, de Austen; esses e outros livros me mostraram em que terreno eu estava chegando. Conto um episódio curioso sobre essa última referência: eu já estava no processo de edição de “Copo vazio” quando li “Razão e sensibilidade”. De repente, encontrei ali algo muito semelhante ao que minha personagem Mirela sofria: Marianne Dashwood é repentinamente abandonada por Willoughby e sofre terrivelmente, quase morre. Pensei em homenageá-la na minha história, plantar nela alguma menção oculta, mas conforme segui lendo o romance de Jane Austen, vi que essa homenagem inadvertidamente já existia: em ambos os livros, há uma cena em que a mulher abandonada quer gritar de dor, mas abafa o próprio grito em uma almofada. Noto um simbolismo interessante nessa repetição, que passa pela ideia de loucura, de histeria, da mulher que precisa se calar.

A protagonista deste seu livro, Mirela, sofre bastante com o abandono de um homem. Pensa que este tipo de mágoa é mais ou menos intensa hoje, numa actualidade dominada pelas redes sociais, como as que ela usa para tentar contactá-lo?
A internet e as redes sociais mudaram drasticamente nossa relação com o tempo e com a espera, e então nossa maneira de lidar com os outros. Estarmos constantemente conectados e mais solitários que nunca talvez nos exponha a sofrer mais, e ao mesmo tempo nos envergonharmos desse sofrimento, de encararmos nossa vulnerabilidade, que é independente de um par amoroso, pois nos constitui.
Mirela começa por questionar a ideia de que a mulher tem de estar, ou de procurar estar, numa relação com um homem, mas acaba por agir de modo a “encaixar” nessa ideia. O que é que isso nos diz acerca da condição feminina? Como pensa que ela se transformará (ou não) no futuro?
A literatura é das melhores maneiras de investigarmos um estado de coisas e ao mesmo tempo questioná-lo. Como, em pleno século XXI, uma mulher bem-sucedida ainda sofre por amor? A resposta a essa pergunta passa pela ironia, pela carga de séculos, pela revisão do que é amar hoje, quando as relações podem ser friáveis.
A narrativa só nos apresenta a perspectiva de Mirela, nunca a do homem que a abandona. A razão desse abandono é algo que concebeu, mas optou por omitir ao leitor, ou é algo que preferiu não aprofundar? Qual a razão da sua opção?
A ausência do fantasma Pedro é o que move a história. Se tivéssemos a sua versão, não haveria buraco que as palavras devessem apontar. Ele foi embora ser dar explicações: é verossímil que as explicações não apareçam no livro. E, se aparecessem, tenho certeza de que seriam muito sem graça.
Nas recordações de Mirela, surgem insinuações de que ele mentiu, mas ela própria questiona a sua memória. Que valor atribui à escrita, na nossa relação com a memória?
Mirela quer salvar a imagem de Pedro, quer poder continuar amando esse homem que deu todas as provas de que não era digno do seu amor. A memória é falha, mas a direção de seu lapso serve a um propósito, a um contexto. É essa oportunidade que a escrita abocanha.
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Fotos: © Renato Parada











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