As freiras que viveram há mais de 500 anos sabem mais sobre a vida do que nós, e são capazes de nos encaminhar na nossa actual vivência fervilhante. É esta a premissa principal por detrás de “Sabedoria do Convento” (Pergaminho, 2026) – com o sub-título como as freiras do séc. XVI podem salvar a tua vida do séc. XXI -, livro que mostra que talvez tenhamos passado demasiado tempo a imaginar os conventos como lugares de silêncio, abnegação e clausura. Para além dos muros, existiam comunidades de mulheres que trabalhavam, negociavam, escreviam, amavam, conspiravam, discutiam, administravam dinheiro e tentavam, com maior ou menor sucesso, escapar ao controlo dos homens.
As mais de 200 páginas foram escritas a quatro mãos, por Ana Garriga e Carmen Urbita, autoras espanholas, historiadoras e criadoras do podcast Las hijas de Felipe, a que dedicaram mais de uma década ao estudo destas figuras conventuais. O livro é fruto desse trabalho de investigação que as juntou nos EUA, mas também de uma amizade e de uma experiência partilhada enquanto investigadoras.
A obra desmonta, logo à partida mas também constantemente, a imagem convencional da freira como figura passiva da história religiosa. As mulheres que Garriga e Urbita recuperam são muito mais interessantes do que isso, entre místicas e escritoras, mas também administradoras, empresárias improvisadas, mulheres envolvidas em disputas de poder e religiosas obrigadas a negociar constantemente com as estruturas masculinas da Igreja. Teresa de Ávila, por exemplo, surge não apenas como santa mas como alguém preocupado com a gestão económica, enquanto muitas outras freiras aparecem a lutar pelo controlo da própria reputação, a defender relações amorosas (homossexuais) ou a enfrentar o assédio e a autoridade dos confessores.
A surpresa maior está, porém, na proximidade que as autoras encontram entre essas mulheres e as próprias ansiedades e preocupações actuais. O convento torna-se uma espécie de laboratório social, onde questões que julgamos absolutamente contemporâneas – a necessidade de reconhecimento, a dificuldade em estabelecer limites, as relações de amizade, a pressão profissional, a falta de dinheiro ou o desejo de construir uma identidade própria – já existiam, embora com outras linguagens e sob condições incomparavelmente mais duras.
É aqui que “Sabedoria do Convento” encontra o seu tom particular: em vez de apresentar as freiras como figuras distantes que devemos admirar, Garriga e Urbita procuram aproximá-las do leitor, estabelecendo paralelismos constantes entre a vida de várias figuras religiosas e as suas próprias vidas e (des)aventuras, num tom que acaba por ser, muitas vezes, algo cómico. A cultura das redes sociais, a celebridade, o FOMO (fear of missing out), a cultura de trabalho ou até os dilemas sentimentais do século XXI, são colocados lado a lado com episódios de mulheres que viveram há quatro ou cinco séculos.
“Sabedoria do Convento” não é, porém – e apesar do título -, um manual de auto-ajuda, ou uma obra de história académica no sentido convencional. O leitor que chegar ao livro à espera de uma sucessão de conselhos práticos retirados da vida das freiras poderá sair frustrado, mas irá encontrar certamente um conjunto extraordinariamente rico de histórias que dificilmente aparecem nas narrativas tradicionais sobre a Igreja e a Idade Moderna.
Acaba por haver algo de irresistível em descobrir um pouco mais sobre uma freira que escreve cartas apaixonadas, outra que constrói uma reputação pública ou outra que encontra formas insólitas de exercer poder dentro de uma instituição que, à partida, lhe negava quase todo o poder. Sor Juana Inés de la Cruz, Teresa de Ávila, Maria de Jesús de Ágreda e outras figuras deixam assim, ao longo do livro, de ser nomes inscritos numa história religiosa, e passando a adquirir uma dimensão eminentemente humana.
Mas Garriga e Urbita não transformam estas mulheres em “feministas antes do tempo” (embora muitas vezes o fossem, ou pudessem ser consideradas como tal), mostrando antes como negociavam as possibilidades que tinham à sua disposição, tendo em conta que o convento podia ser um espaço de repressão mas, ao mesmo tempo, poderia proporcionar a algumas mulheres uma autonomia que dificilmente encontrariam fora dele – desde o acesso à educação, a possibilidade de escrever, as redes de solidariedade, a capacidade de gerir propriedades ou uma certa distância das expectativas matrimoniais.
O livro permite ainda descobrir que as pessoas do passado eram tão contraditórias, ambiciosas, frágeis e inventivas como as de hoje. Em resumo, além de permitir aprender um pouco mais de história e da vida de algumas personalidades femininas dos conventos, a obra oferece uma tradução constante desses percursos para a era do vocabulário da Internet e das redes sociais.











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