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Entrevista: Merai

Por Isabel Daires · Em 05/11/2025

Depois da música, Merai estreia-se na literatura com “Contos e Mitos de Plorema” (ler crítica), um projecto que, segundo nos revela nesta entrevista, tem já vários anos. Um livro que é um convite à exploração de um universo maravilhoso, ao qual tenciona voltar. Um universo de sonhos, repleto de criatividade, através do qual podemos vislumbrar o mundo interior riquíssimo desta artista multidisciplinar – e também expandir o nosso, graças à magia da própria leitura.

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Pode falar-nos um pouco sobre a origem do nome “Merai” e a razão de também o ter atribuído à protagonista do último texto de “Contos e Mitos de Plorema”?

Na verdade, eu baptizei-me de Merai por causa desse conto, e não o contrário. Antes o meu nome artístico era Meraky (fazendo referência à palavra grega Meraki, significando algo parecido àquela frase de Pessoa: “põe tudo de ti na mais pequena coisa que faças”), e decidi mudar após ter escrito este conto, pois senti que era mais autêntico e mais verdadeiro.

Como nasceu este projecto? Quais as suas fontes de inspiração?

Desde criança que digo que quero ser escritora. Antes de ser cantora até. Na minha cabeça, as artes não têm separação. Este projecto nasceu há muitos anos. Tinha eu para aí uns 12, ahahah! Com isto, quero dizer o mundo de Plorema. Entretanto, claro que sofreu muitas mutações, irei explorá-lo muito mais no Futuro. Este livro, concretamente, nasceu numa viagem que fiz a Cabo Verde quando tinha 18 anos (portanto, há 7 anos atrás). Levei comigo duas máquinas descartáveis. As fotografias que de lá retirei (3 rapazes na água, barcos a chegar à costa, uma amiga minha dentro de uma gruta, etc.) despertaram estas histórias em mim. Na casa onde estava havia um livro de Mia Couto, “Contos do Nascer da Terra”, que me inspirou no sentido de formato – o conto -, e também pelo seu realismo mágico, com o qual me identifico muito. Tive oportunidade de estudar literatura angolana, moçambicana, e sinto-me muito em casa nesses imaginários. O animismo é algo que me sabe a casa.

Aquilo que diz do azul, no conto que tem o seu nome, significa que é a sua cor favorita? Como é que as cores a influenciam?

Pergunta interessante. Talvez seja a minha cor favorita, porque acho que é muito misteriosa. O facto de ser rara na Natureza e de se dizer que foi a última cor a ser vista pelos humanos (pois há registos antigos de descrições do céu, e não se pareciam nada com a cor azul). Fico indecisa entre azul, roxo e, ultimamente, verde. Gosto de todas as cores e gosto do que simbolizam, do efeito que têm na nossa mente. A criar, gosto de ser super intencional com o uso das cores. Às vezes, mesmo na forma como me visto no dia a dia, se quero um “boost” de confiança, visto um vermelhão, se quero passar despercebida, visto-me de preto.

Foto: Bárbara Dias

Este livro foi editado em parceria com a Associação Labor. O que deseja partilhar acerca dessa associação, para conhecimento de quem ainda não leu o que escreve sobre ela?

Eu comecei a trabalhar com a Labor mais ou menos depois de voltar de Cabo Verde, tinha 19. Dou lá aulas de música há 6 anos. A Labor é uma Cooperativa para adultos com deficiência que trabalha a sua integração, as suas capacidades motoras, cognitivas, artísticas, sociais. Aprendi muitas coisas lá, com os meus alunos, que já conheço muito bem e que me conhecem muito bem a mim. Nas nossas aulas não temos pressa, temos a nossa rotina, e queremos acima de tudo divertir-nos e aprender. É um privilégio poder ensinar assim. A CAO Labor decidiu apoiar a edição do meu primeiro livro e por isso estou-lhes muito grata, em especial à Sofia que acreditou no projecto desde o início.

A palavra “Pleroma”, que vem do grego, é usada em vários contextos, com um significado central de plenitude ou totalidade. Foi daí que veio o nome “Plorema”, pela troca de posição de duas letras?

Na verdade, não vem daí não. Só mais tarde é que descobri essa palavra, e achei muito engraçado. A palavra Plorema veio de um anagrama que fiz quando tinha 13/14 anos. Um anagrama, para quem não sabe, resulta de trocar a ordem das letras de uma frase ou palavra e criar uma frase ou palavra nova(s). O meu nome de nascimento é Mariana Portela e estava a fazer brincadeiras com ele, daí surgiu Ana Rita Plorema, que eu digo sempre que é o meu alter-ego. Por isso é que a personagem principal se chama Ana, é a Ana Rita.

No conto “O Diálogo de Ana e Fauno”, a protagonista tem sonhos muito vívidos, que descreve pormenorizadamente num caderno mantido ao lado da almofada. É uma prática que partilha?

Tenho sim, sonhos bastante vívidos. Não os tenho lúcidos (ainda), mas divirto-me muito a sonhar, procuro entender o significado dos meus sonhos e registá-los de qualquer modo que seja. Sinto que analisar os meus sonhos ao longo dos anos deu-me um maior conhecimento de quem eu sou e também é uma das ferramentas que acredito que tornam a nossa vida mais interessante – temos uma vida dupla, onde passamos metade do nosso tempo, porque não aproveitar?

“A Máquina Fotográfica que Fotografava o Futuro” parte de conhecimento científico na área da astronomia (acerca do Big Bang e do tempo que a luz das estrelas demora a percorrer a imensidão do espaço até alcançar a Terra), para daí retirar ilações assombrosas. Que outras áreas científicas lhe despertam interesse? A fusão do lado maravilhoso da Ciência com a Fantasia é algo que tencione voltar a fazer noutras narrativas?

Obrigada por esta pergunta – ahaha, eu esforcei-me! Interessa-me acima de tudo a ciência (do pouco que eu conheço) que me parece a mais poética: a física quântica. Li 2 ou 3 livros sobre física quântica (“for dummies”) que me ajudaram a compreender como podia estruturar esta história, e também a dos Recém Chegados. Não foi propositado, simplesmente tenho interesse no tema, e por causa desse interesse as histórias acabaram por ter um toque disso. Mas não quero ficar demasiado presa a isso, nem tenho conhecimento para tal. Sempre pensei que se tratando de um mundo de fantasia, o importante era eu dar asas à minha imaginação, livremente. No entanto, é sempre uma desculpa para saber mais. No Futuro, sim, adorava poder conjugar a Ciência com trabalhos artísticos, talvez até colaborando com pessoas que saibam mais que eu, isso seria um luxo!

Escreve que os livros permitem “falar abertamente para uma pessoa sem a conseguir ver”. É como um super-poder, infelizmente desvalorizado por muitos. O que pensa que é necessário para que o seu valor seja mais reconhecido?

Ler está na moda, e ainda bem. Faz sentido, pois com a saturação tecnológica vem um retorno ao analógico, à simplicidade, à natureza e ao cheiro e textura das folhas de papel. Gostava que fosse mais fomentado ainda. Ler é como uma meditação, e pode ser difícil no começo, se uma pessoa não tem prática. Eu brinco muito que tenho uma capacidade de atenção baixa, mas é puramente verdade, infelizmente, e há inúmeras pessoas da minha geração, acima e abaixo, que se encontram na mesma situação. Eu acho que é dos melhores exercícios de empatia e dissolução do ego que uma pessoa pode fazer, o de ler. Tu deixas de ser tu por alguns momentos, e estás a ver a vida através dos olhos do outro, mas uma vida completamente projectada pela tua imaginação. É mágico.

Outro conto começa com a frase “A curiosidade é uma força oposta à gravidade”. Para onde a impele a curiosidade? Que outros caminhos pretende explorar?

Realmente sou uma pessoa muito curiosa, e a minha curiosidade impele-me para todo o lado que eu desejo com muita força, e repele-me de todo o lado que eu não desejo, com uma força correspondente. Apresento-me há algum tempo como artista multidisciplinar, porque cada vez mais tenciono expandir os sectores daquilo que faço, juntá-los, experimentar. Isto é tudo uma projecção de um sonho (daqueles que sonhamos à noite, não dos outros), ou seja, sou eu a exteriorizar o meu inconsciente para me conhecer melhor e, com sorte, estou também a trazer à tona coisas que existem noutras pessoas, a despertar-lhes curiosidade, ou outra coisa. Faço-o para comunicar acima de tudo. E acredito que acedemos a partes diferentes de nós com diferentes formas de arte. Por isso eu não quero excluir nenhuma.

–

Foto: Bruno Portela

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Isabel Daires

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