Foi um dos nossos livros preferidos de 2023, escrito pela neozelandesa por Eleanor Catton, a mais jovem vencedora de sempre do Booker Prize (com “Os Luminares”). Entre o sarcasmo e a tragédia, “A Floresta de Birnam” (ler crítica) coloca em confronto um colectivo ecologista e um multimilionário, trazendo para a frente temas como as alterações climáticas ou a liberdade de expressão. Isto enquanto nos pergunta o que raio se faz à ética e aos valores quando o poder decide bater à porta. Estivemos à conversa com a autora na edição de 2024 do Folio, sempre com Shakespeare a fazer-nos sombra.

Em 2015, num festival literário da Nova Zelândia, falou dos políticos neo-zelandeses como “neoliberais, obcecados pelo lucro, muito superficiais e gananciosos”. Houve quem a acusasse de traição, de ser uma pessoa desagradável, e até mesmo o primeiro-ministro de então, John Key, disse que o melhor seria ficar fora da política, uma vez que esta não era a sua praia. Dois anos depois publicou “A Floresta de Birnam” (“Birnam Wood” no original). Foi um livro escrito para, de alguma forma, se vingar de um momento pessoal complicado?
Sim, no sentido de que muito do acto de escrever é tentar que a vida faça sentido para nós próprios. Foi um episódio que abalou a minha confiança, a capacidade de sentir alegria e de estar feliz no mundo. Algo que, de certa forma, me atirou para uma longa depressão. A única saída foi encarar a situação de frente. Fiquei preocupada com o que o Primeiro-ministro tinha dito, cheguei a ter receio de que as suas palavras pudessem conter em si alguma verdade. Quis ter a certeza de que algo deste género não se iria repetir, então comecei a ler livros sobre política, teoria política e todas as questões e assuntos que me pareceram ser relevantes. De todas essas leituras acabou por surgir “A Floresta de Birnam”.
É um livro muito político.
Sim, mas espero que também que o entendam como um livro sobre a moral e a ética. Que mostre pessoas a tomarem decisões e quais as consequências dessas mesmas decisões. Não é um livro político no sentido de avançar ou impor um determinado ponto de vista. Mas sim, a questão da vingança não deixa de ser interessante (risos).
Sentiu-se vingada depois de escrever o livro?
O primeiro-ministro acabou satirizado no romance, o que foi muito satisfatório. Ele é famoso por ter restaurado os títulos de cavaleiro na Nova Zelândia, que haviam sido abolidos, unicamente para se tornar Sir John – é agora Sir John Key. Foi demasiado ridículo. Quando estava a descobrir-me enquanto jovem adulta, ele personificava uma visão da Nova Zelândia corporativa, meio polida, voltada para as relações públicas, de uma identidade nacional que se baseava fortemente em pesquisas de opinião, bastante falaciosa, que mostrava um certo desprezo por pessoas que não se pareciam com ele ou a sua visão. Neste sentido, responder ao que aconteceu acabou por ter algo de catártico. Precisamos de nos envolver com os nossos valores a partir oo momento em que atingimos a maioridade, de entender como essas forças actuam sobre nós e o papel que nos cabe desempenhar no mundo.

“A Floresta de Birnham” é um livro onde não existe uma demarcação entre os bons e os maus, qualquer personagem poderá, a dado momento, transformar-se no vilão da história. O livro atravessa várias questões da actualidade, como os perigos da tecnologia, a depravação do capitalismo, os sistemas de vigilância – que fazem o Big Brother parecer um sistema datado -, o colapso ambiental ou a submissão dos média ao poder estatal. A culpa, porém, não se atribui apenas boomers, mas também – e de forma muito irónica – aos millenials de esquerda, tribo na qual a sua autora se insere. Na Quinta dos Animais de Orwell estamos todos tentados a vestir a pele do porco? A moralidade – ou a distinção entre o bem e o mal – é apenas uma questão de perspectiva?
Continuo a acreditar na diferença entre o bem e o mal. Mas questiono-me sobre o quão binários nos tornámos, de como se passou a olhar para a realidade unicamente entre o preto e o branco, particularmente na política, e de como essa distinção básica e falaciosa foi apropriada pelos meios de comunicação – e aceite por nós de forma conformista. Queria usar o livro para explorar estas questões. A posição responsável que um artista deve assumir é sentir as coisas profundamente e oferecer um ponto de vista, mas não necessariamente usar o romance como o porta-voz desse ponto de vista. Mais do que dar respostas, este romance foi uma ferramenta para colocar questões.
O mundo virtual veio trocar um pouco as voltas ao que é, de facto, agir pela mudança, levantando uma série de questões éticas.
Sim, sobretudo pela forma como as pessoas definem a sua identidade ou crenças políticas. Há uma diferença crucial entre dizer algo e fazer algo, mas o curioso sobre os espaços online é que essa distinção entre dizer e fazer desapareceu. Se entro no Twitter e me solidarizo com este grupo, ou me oponho a um outro, isso conta como uma ação. Existe uma confusão estranha entre discurso e acção, são tratados como se fossem a mesma coisa. O mais grave é que transportámos isso para as nossas vidas offline, esquecendo que, na verdade, existe uma diferença crucial entre dizer e fazer, que existem acções que estão a milhões de quilómetros de distância da fala. Quis abordar esta ideia em “A Floresta de Birnam”, tornando-o um thriller electrizante. Um livro de acções, onde o que os personagens fazem e dizem uns aos outros, no sentido de a fala ser uma acção, não pode ser desfeito. Fi-lo desta forma porque me incomodava a quantidade de romances supostamente políticos que eram publicados quando, na verdade, nada acontecia na história. Dominava uma espécie de estagnação, pairava sobre todos estes livros uma inércia depressiva. Porém, uma vez que os autores tinham valores supostamente correctos, era esperado que aceitássemos tratarem-se de obras políticas. Não conseguia aceitar isto, um romance precisa de praticar o que tenta vender. Quis que “A Floresta de Birnam” fosse um livro que colocasse os seus valores em prática, mas sem necessariamente os expressar verbalmente.

Em “O Ensaio”, descobrimos várias referências a Shakespeare, sejam de sonetos ou de Macbeth. “Os Luminares” transporta-nos até à era victoriana, onde Shakespeare era qualquer coisa como o profeta de serviço. “A Floresta de Birnam” é um lugar central e profético em MacBeth. De onde vem este seu fascínio por Shakespeare?
É difícil explicarmos as coisas que amamos, tentar explicar o porquê parece de algum modo banalizá-las. Seja como for, acabo sempre por regressar a Shakespeare. James Shapiro, um estudioso que escreveu o livro “1599”, participou no Festival de Escritores de Auckland há alguns anos, onde disse algo fascinante: cada cultura tem o seu próprio mini-cânone de obras Shakespearianas, que varia de país para país. Desde então, sempre que vou a um país novo pergunto qual é a peça de Shakespeare mais conhecida, ou a mais amada. É interessante como as respostas são diferentes. Na França, por exemplo, mencionaram “Hamlet”, que não é particularmente conhecido na Nova Zelândia. Na Holanda, assim que fiz essa pergunta, a resposta imediata foi “Romeu e Julieta”. “Júlio César” é frequentemente citado nos Estados Unidos, mas é muito, muito desconhecido na Nova Zelândia. Acho isso muito interessante. Talvez se deva a serem peças de teatro, podendo ser incorporadas e interpretadas de diferentes formas. Shakespeare é um verdadeiro espelho, um escritor fascinante para revisitar, que permite conhecer uma nova versão de histórias a cada leitura. Voltei a reler “Macbeth” em 2016, em parte por causa do que estava acontecendo politicamente. E percebi que as pessoas usavam Macbeth como termo de comparação, dizendo coisas como “Ah, sabe, ele é tão parecido com Macbeth”, ou “Ela é tão Lady Macbeth”, mas nunca diziam isso de si próprias. Além disso, a ideia de se ser seduzido por uma crença, tal como acontece com Macbeth e as suas profecias, tem algo de viciante. Em 2016, o livro pareceu dizer-me muito sobre nossa relação com as redes sociais, e a maneira como somos seduzidos com tanta frequência por essas visões de certeza sobre o futuro que nos são apresentadas. Estamos a tornar-nos cada vez mais parecidos com Macbeth, talvez porque haja algo de viciante – e meio corrosivo – em sermos tratados com a certeza de que o futuro e o resultado estão garantidos.
“O Ensaio” foi adaptado ao cinema em 2016, numa longa-metragem realizada pela realizadora Alison Maclean – não sei se terá ficado contente com o resultado.
O filme acabou por se desviar bastante do livro, foi uma experiência algo estranha porque senti algum distanciamento em relação à obra. Há, por exemplo, uma personagem no livro que era muito importante para mim, e que acabou por ser cortada. Ainda assim foi interessante vê-lo.
Com “Os Luminares”, adaptado a uma série pela BBC, a experiência foi diferente, uma vez que participou no processo criativo.
Sim, a sensação de não ter tido um sentimento de posse em relação a “O Ensaio” fez-me pensar: “Ah, não, quero tentar”. Depois desta experiência acabei por trabalhar mais vezes como guionista. Adoro fazê-lo como um complemento à escrita de romances, porque há muitas coisas diferentes que se podem criar. Os romances podem brincar com o tempo e o espaço, dentro de um parágrafo podem torná-los elásticos. É possível acompanhar na Literatura uma linha de raciocínio de uma forma que não faz muito sentido no grande ecrã. De outra forma, neste é possível trabalhar coisas incríveis que não se consegue fazer no papel, sejam relacionadas com a banda sonora, as transições ou a forma como a câmara se vai movendo.

“O Ensaio” é uma história sobre raparigas adolescentes e um escândalo sexual ocorrido numa escola secundária na Nova Zelândia. “Os Luminares” e “A Floresta de Birnam” centram-se na ganância humana para saquear os recursos naturais da Nova Zelândia. “Doubtful Sound”, o thriller em que está actualmente a trabalhar, tem o nome de um remoto fiorde neo-zelandês. O Reino Unido pode ser o seu lar, mas a Nova Zelândia parece ser a sua casa ficcional.
A última vez que morei na Nova Zelândia foi em 2018, e o filme “Doubtful Sound” passa-se em 2018. Neste momento, não sei se conseguiria ambientar um romance contemporâneo na Nova Zelândia, porque a pandemia teve sobre os neozelandeses um impacto muito diferente da minha experiência no Reino Unido. Desde então, a Nova Zelândia parece-me um lugar diferente. Relativamente à escrita, existem muitas maneiras de nos perdemos ao falarmos sobre uma cultura que não conhecemos, que não nos moldou, que não deixou marcas. Sinto que ainda não conheço suficientemente o Reino Unido para escrever sem cometer erros. Além disso, acho que tem de haver algo de pessoal em jogo num livro, que o processo de descoberta para o escritor tem de reflectir, de alguma forma, o que as personagens estão também a descobrir e a aprender. Se o escritor tratar o cenário como algo indiferenciado para a história isso pode ser perigoso, porque pode significar que a história não transmite a sensação de que você tem algo de pessoal em jogo. Por isso, não consigo de momento imaginar-me a escrever um livro que não se passe na Nova Zelândia. Mas quando tiver morado fora o tempo suficiente para que isso aconteça, quem sabe?
É também uma forma de se sentir perto de casa, mesmo não estando lá.
Sim, talvez. O que sentimo também influencia. Quando comecei a escrever A Floresta de Birnam”, ainda me sentia muito irritada com o que tinha acontecido em 2015. Tive de encontrar uma maneira de lidar com essa raiva, de a colocar de lado e me lembrar do amor que sinto pela Nova Zelândia, aquele tipo de amor complexo que você sente pelo seu próprio país. A raiva é sempre uma visão de curto prazo, contrária ao projecto de escrever um romance em muitos aspectos. Não todos, porém. Agora que penso nisso, há livros raivosos que são absolutamente maravilhosos (risos).
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Fotos: Luísa Velez











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