“Em Lesbos, enquanto caçava no bosque sagrado das Ninfas, vi a mais bela maravilha que alguma vez vira. Era a pintura de uma cena: uma história de amor”. Assim começa o narrador de “Dáfnis e Cloé” (Assírio & Alvim, 2026) a contar-nos a história destas duas personagens, protagonistas de uma pintura encantadora, que o deslumbra ao ponto de decidir reproduzi-la textualmente. Pedindo aos poderes divinos que lhe concedam sensatez, escreve algo que “lembrará os que amaram e ensinará os que não amaram”, como “oferenda a Eros, às Ninfas e a Pã, mas também para o deleite de todos os homens”.
O cenário dos eventos é a ilha grega de Lesbos (onde viveu a famosa poetisa Safo), aqui representada como um domínio verdejante, percorrido por riachos, ninfas e pastores com os seus rebanhos. São precisamente dois casais de pastores que adoptam duas crianças abandonadas: um rapaz chamado Dáfnis, descoberto e amamentado por uma cabra, e uma menina chamada Cloé, que recebe idêntico tratamento da parte de uma ovelha. O par cresce junto, apaixona-se, descobre os progenitores biológicos e casa, não sem antes ultrapassar várias peripécias, incluindo pretendentes maliciosos, piratas e um conflito entre cidades rivais.
A autoria do texto é atribuída a um certo Longo, de quem nada sabemos. Presume-se que tenha vivido em Lesbos, no século II d.C., tanto podendo ser um romano como um grego romanizado, pois a Grécia estava, na altura, integrada no Império Romano. Duarte Venâncio dos Anjos – responsável pela tradução, pelo posfácio e pelas notas – expõe os elementos que ajudam a datar a obra, as influências recebidas e o seu impacto na cultura ocidental, explicando que a narrativa decorre numa Grécia Clássica já separada por séculos da realidade do autor, que se esforça “por manter a narrativa num período histórico vago e anacrónico, idealizando a Grécia das cidades-estado independentes” e até usado uma língua antiquada – uma espécie de “antigamente é que era bom”, ao gosto de uma elite urbana, erudita e nostálgica.
Compreendendo esses esforços, é irónico que uma mente contemporânea note vários pormenores reveladores de que aquela vida bucólica idealizada não era assim tão ideal. Para começar, deixar bebés expostos aos elementos para que fossem os deuses a determinar o seu destino era prática aceite. Depois, os pais adoptivos chegam a ponderar deixá-los para trás, mas não querem ser ultrapassados em solidariedade pelo gado – e, deduzindo por indícios que as crianças vêm de uma classe alta, acreditam na possibilidade de melhorarem a sua condição através da descoberta dos pais biológicos. Muito mais tarde, quando o amor já é assumido, uma das grandes demonstrações de amor que o rapaz faz à rapariga é dizer-lhe que, se ela preferisse outro, “matar-se-ia em vez de a matar a ela” – e a alegria dela ao ouvir isto confirma a nossa suspeita de que o homicídio deveria ser comum, como infelizmente continua a ser.
A leitura é prazerosa pela reconstituição de um certo mundo campestre antigo, com as suas crenças e rituais, pela descrição do desenvolvimento da uma dimensão cada vez mais erótica na relação dos protagonistas, mas também por tudo o que um olhar crítico descobre acerca da romantização de um passado evanescente.











Sem Comentários