É um daqueles caso em que o brilhantismo da ideia não conheceu a melhor das execuções, apesar da excelência gráfica. Combinando ficção policial, intriga histórica, crítica social e viagens no tempo, “Corpos” (Devir, 2025) situa-se em quatro diferentes momentos históricos – 1890, 1940, 2014 e 2050 -, nos quais um mesmo corpo surge, sem identidade, invariavelmente no mesmo local: Longharvest Lane, Londres.

Em cada um dos quatro capítulos, acompanhamos as investigações de diferentes detectives: Edmond Hillinghead, o inspector vitoriano que se acha um justiceiro por conta própria, tentando ver além do caso do momento – Jack, o Estripador; o jovem anarquista Charles Whiteman, que escapou aos nazis na Polónia em anos de Segunda Guerra Mundial; Shahara Hasan, uma polícia muçulmana praticante de uma violência policial com muito estilo; e Maplewood, uma investigadora num lugar do tempo onde a memória foi quase apagada, restando apenas recordações dispersas e objectos com estranhos nomes.

Em 2050 houve um acidente terrível, e toda a gente parece ter-se esquecido de tudo. Todos menos Mapplewood, que vai repetindo a mesma pergunta como se fosse um mantra: “Quem és tu e do que te lembras?”. A solução para este estranho crime – que conduz invariavelmente a uma ressurreição – parece estar ligada a um símbolo, o mesmo que o do monograma de uma família com muito poder e espírito de persuasão.

Com argumento de Si Spencer, “Corpos” aborda de raspão temas como a violência policial, a manipulação da verdade histórica, a corrupção estrutural ou os poderes que se movem nas catacumbas, mas tudo acaba embrulhado à pressa e sem um laço bonito. Um livro que vale, e muito, pelas abordagens estéticas de Dean Ormston (1890), Phil Winslade (1940), Meghan Hetrick (2014) e Tula Lotay (2050), oferecendo para cada um dos períodos temporais uma BD quase autónoma, que compensa e bem um livro que pretende ser uma homenagem à “corajosa, maravilhosa e excêntrica” Inglaterra.
“Corpos” foi adaptado a série por Paul Tomalin, que pode ser vista na Netflix.











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