“A história dos argonautas é uma grande expedição, uma missão, uma saga. Uma tripulação de grandiosos heróis constrói o seu navio com inspiração divina e parte para uma terra distante”. Contém todos os ingredientes de um épico. Mas estes heróis não são grandes modelos de comportamento, e o troféu que buscam – o velo de ouro – é, na realidade, a pele de um animal divino, que não se importam de matar em nome da glória, e que deixa uma mãe que o chora – também ela habituada a ser tratada como um objecto. Tanto a mãe como o filho, além de um rei morto por engano e outros efeitos colaterais, vão sendo deixados para trás pela tripulação do navio Argo, comandada pelo glorioso Jasão, um dos homens “que nascem para serem os favoritos dos deuses – ou, pelo menos, para parecerem que o são, durante algum tempo”.
Inspirada pela mitologia grega e pelos textos clássicos acerca desta expedição, Natalie Haynes constrói, em “Contra Esta Casa” (Topseller, 2025), um romance polifónico, cujos (curtos) capítulos vão oferecendo múltiplas perspectivas – divinas, animais e minerais – acerca dos acontecimentos em curso. Dessa forma, acedemos a diversas mentes, tanto de um corvo desbocado como de deuses orgulhosos e vingativos. Mas, sobretudo, conhecemos as narrativas das mulheres, tantas vezes negligenciadas ou mal representadas, com destaque para Medeia.

Visto que o sucesso da demanda de Jasão depende desta feiticeira inteligente, as divindades que o apoiam determinam que Medeia seja atingida por uma flecha disparada por Eros. Nasce, assim, uma amor que é, para ela, uma maldição, levando-a a trair o pai e a fugir com um aventureiro que faltará à palavra dada. Após a obtenção do velo de ouro, os argonautas, em geral, já não sentem “a gratidão que ela lhes mereceu em vários momentos”. Jasão, em particular, que “nunca sentia o peso de uma dívida” – embora detestasse sentir que alguém “o considerava menos do que o melhor e mais honrado dos homens” – ressente-se da boa reputação que ela vai construindo a seu lado, levando-a a moderar-se constantemente: “Precisava de ser inteligente, mas não demasiado; de me adaptar, mas não demasiado bem; de ser popular, mas não mais do que ele”. O drama de Medeia é, em parte, o de alguém que nunca se adaptará o suficiente para prender um espírito tão volúvel, que a abandona, explorando vilmente o seu estatuto de estrangeira.
Numa escrita belíssima, Haynes combate os preconceitos acerca da personagem de Medeia. Aqui, em vez de uma jovem insensata, disposta a tudo pelo homem amado, ela é uma mulher forte, que cresceu na corte de um rei cruel, e por isso reage com uma vingança inesperada contra quem não hesitou em feri-la. Esta obra procura fazer-lhe justiça, mas também dar voz a figuras habitualmente relegadas para segundo plano, ou até omitidas, que desejam ser escutadas: “Se não me conhecia até este momento, não será isso mais uma razão para me incluir e não o contrário? Que interesse há em contar as velhas histórias outra vez da mesma maneira?”











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