“Seja como for, o suicídio atrai-nos porque a sua consumação implica um aparente silêncio, mas um silêncio que continua a falar connosco através das palavras do suicida, dos amores ou das amizades do suicida, do rasto que o suicida deixa em quem lhe sobrevive.”
Assim escreve Fernando Pinto do Amaral, na nota prévia que acompanha “Contos Suicidas” (Dom Quixote, 2025), uma compilação de 17 narrativas breves onde explora criativamente muito do que o suicídio pode dizer ou calar. Todavia, convém salientar que o conceito de suicídio é aqui polifacetado, transcendendo o seu significado convencional para abarcar múltiplas formas de interrupção ou suspensão da existência – para além dos casos, mencionados na nota, de “mortes adiadas ou de certo modo imaginárias”.
Esta vasta acepção do termo permite ao autor reunir uma grande diversidade de personagens e de situações. Por exemplo, em “Estrela”, um par composto por uma avó e uma neta faz um pacto indubitavelmente suicida na noite de Natal. Em “O Método”, vida e teatro confundem-se, quando um actor é incentivado a envolver-se de forma demasiado intensa numa peça, com consequências trágicas previsíveis. “A Cardiologista” é mais surpreendente, apresentando uma protagonista complexa, ciente de não sentir o mesmo que o comum dos mortais, e que por isso acredita ter um coração tão doente quanto os que vê desfilar na clínica. Esta médica é procurada por um homem que deseja deixar de existir, mas o que poderia ser um caso relativamente simples de eutanásia desemboca em algo inesperadamente sombrio.

Em mais de um conto, a ideia de suicídio envolve alguma forma de entorpecimento do espírito. É o caso d’“A Jogadora”, narrado por um jornalista que segue até Macau uma mulher belíssima, obcecada pelo jogo e “disposta a dar largas à sua pulsão, sob o pretexto sempre virtuoso de uma investigação académica”. Outro exemplo é “Filosofia”, onde um padre em viagem pára numa área de serviço, à beira duma auto-estrada, e é interpelado por um desconhecido demasiado pronto a culpar os outros pelos males do mundo – um homem que lhe faz “confissões incendiárias”, entre uma apologia da violência e da destruição. Tal avaliação negativa do estado do planeta, por vezes acompanhado da crença na destruição redentora, é partilhada por várias personagens, tornando-se um tema recorrente, a par do sono e dos seus mistérios. Por sinal, os contos mais fascinantes são também os mais enigmáticos, onde o sono acontece e nos deixa sem saber se acabámos de ler a descrição de um pesadelo ou de uma experiência pós-vida: “O Quarto Azul” e “Viagem de Inverno”.
Embora a primeira história decorra há mais de um século, podemos identificar o nosso presente nas restantes, mesmo quando as domina uma estranheza que as coloca fora do espaço e do tempo. Por sua vez, as coordenadas geográficas são bastante diversificadas, bem como as abundantes referências literárias. Acima de tudo, une-as a presença de seres em queda – na tristeza, na violência, ou num sono que ora é literal, ora metáfora que nos interroga.











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