Mestre do terror, rainha do suspense, princesa do calafrio. Títulos e honrarias que, a serem oficiais, poderiam ter sido atribuídos a Shirley Jackson (1916-1965), autora de quem a Cavalo de Ferro tem publicado preciosidades como “Sempre Vivemos no Castelo” (ler crítica) ou “A Maldição de Hill House” (ler crítica).
“Contos Sombrios” (Cavalo de Ferro, 2025), volume póstumo à morte da autora, reúne 17 narrativas curtas, cada uma delas atravessada pela obscuridade e uma capacidade fora de série de mostrar os mais básicos, mesquinhos e maléficos instintos humanos.

Há uma mulher, hábil na suspeita, que se acha dona de uma pequena cidade, assumindo a missão de a manter em estado de alerta; uma filha que, uma vez por ano, escuta o apelo radiofónico da mãe para que volte a casa, interrogando-se sobre “o que nos define enquanto seres únicos, facilmente reconhecíveis para os outros”; Um “homem de chapéu leve”, que parece perseguir um outro que só quer chegar a casa com uma caixa de chocolates debaixo do braço; Mrs. Smith, “uma criatura frágil e adorável” numa lua de pouco mel; um quadro onde, por baixo do vidro onde descansa, se pode dançar; dificuldades de afinação, provadas por um fonógrafo e um disco que começa ao contrário; um altruísmo que esconde um intenso negrume; uma casa que, aparentemente, esconde uma família feliz e em paz doméstica, mas onde a mulher repete incessantemente: “aquele homem não é o meu marido”; um acidente mortal, que esconde fantasias adolescentes, muita coscuvilhice e o atirar de um bilhete premiado ao caixote do lixo; uma mulher que, ao pensar nos seus 10 anos de felicidade conjugal, se vê assaltada por uma ideia fixa: “ia pegar no pesado cinzeiro de vidro e estilhaçá-lo na cabeça do marido”; uma outra mulher que odiava viajar fosse a que horas fosse, odiando em particular o autocarro pequeno que a levava a casa; uma desafortunado que não se considera tal, e que abraça a cleptomania para combater a sua falta de personalidade à boleia de um plano: plantar a suspeita, alterar o eco-sistema e recolher os louros; uma visita VIP onde não faltam avisos e maus augúrios: “Aqui esteve Margaret que morreu de amor”; uma prisioneira no próprio quarto, mulher de um marido que poderia ser irmão de Maquiavel; uma pequena aldeia de uma rua só; ou ainda uma cabana a dez quilómetros de distância da aldeia mais próxima, onde um casal prolonga a estadia e se vê condenado ao esquecimento.
Apesar de não conter o fôlego das narrativas longas e cirúrgicas de “Sempre Vivemos no Castelo” ou “A Maldição de Hill House”, “Contos Sombrios” esconde algumas pérolas Jacksonianas, sobretudo na criação de personagens femininas entre a mais pura fragilidade e o fogo da rebelião, em páginas onde a loucura e o terror não estão à espreita – fazem parte do cenário.











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