“Este livro contém a minha religião, os meus sonhos, os meus maiores pesadelos, o caos e a ordem que me regem, a tentativa de unificar esta dualidade. É o meu núcleo, que aqui ofereço ao mundo.”
Depois da música, Merai (nome artístico de Mariana Frangioia Portela) estreia-se na literatura, oferecendo-nos um novo presente, desta vez sob a forma de livro: um volume intitulado “Contos e Mitos de Plorema” (Merai e Labor, 2025), que, apesar de pequeno, contém múltiplos universos a desbravar.
Encontramos Plorema logo no primeiro conto. Trata-se do nome da Princesa da Rocha, nascida na escuridão, “fruto de um murmúrio cósmico”. Sendo uma rocha, esperar-se-ia que permanecesse imóvel e silenciosa, sem quaisquer necessidades, contentando-se com a mera existência, mas o desejo de algo novo arde dentro dela como o fogo que participou no seu nascimento. Quando a experiência entra em contradição com o que lhe foi transmitido, ela rebela-se, provocando inadvertidamente a destruição do lar que sempre conheceu. Caída no Mar, cresce ao longo das eras até originar um arquipélago, enquanto o mundo se transforma. Plorema é, assim, mais do que um território; é uma entidade viva, protagonista da sua história e testemunha de outras.

Tanto este conto como os seguintes soam como parte de um património ancestral povoado por seres elementais – a Rocha, o Fogo, o Mar, a Morte –, onde sonhos e visões revelam a realidade para além do véu das aparências. Numa história de crescimento, um rapaz entabula um diálogo com o Fogo, em busca de conhecimento. Noutra, três amigos entram numa casa intemporal e recebem do idoso que nela habita informações acerca do passado, do presente e do futuro, que eles próprios acabam por representar. Há uma narrativa sobre um regresso muito aguardado, após uma viagem maravilhosa por terras longínquas, que se transforma numa partida definitiva, quando uma verdade que deveria ter permanecido silenciada é revelada em sonhos e pronunciada. E há, também, uma protagonista que visita em sonhos uma terra chamada Plorema e come os seus frutos (literal e metaforicamente).
O título do último texto, “Merai”, é também o nome de uma personagem: uma jovem seroua especial – não confundir com sereia –, que sonha ser uma terra e escolhe um caminho diferente das demais. Tal como Plorema, também ela desafia as expectativas e torna-se geradora de mudança. O início e o fim unem-se num círculo. Todos os contos estão interligados, seja pela presença de personagens e figuras tutelares, ou por canções, ou por vislumbres de outras dimensões. Não falta criatividade no enredo, e a escrita também consegue ser original, com frases de estrutura surpreendente – como “O já de nos abraçarmos e de eu largar toda a água salgada que continha dentro de mim estava prestes”. Mas o que mais se destaca é a profundidade das mensagens transmitidas pela combinação de palavras simples, recordando-nos a magia das palavras.











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