O século XX ainda é uma criança no início de “Chéri” (Porto Editora, 2025), romance que a audaciosa Sidonie Gabrielle Colette (1873-1954) – polémica na sua época e mais conhecida apenas pelo apelido – publicou pela primeira vez em 1920, em França. É ainda numa Belle Époque de paz e prosperidade que conhecemos o par composto por Léa de Lonval e Fred Peloux: ela teve “uma feliz carreira de cortesã de fartos rendimentos” e, à beira dos 50 anos, mantém-se elegante e bela, disfarçando os sinais da idade com alguns cuidados de toilette; ele é o filho de uma das suas antigas rivais, um rapaz mimado e insolente, na casa dos 20, que ela trata por Chéri e que é descrito como “a beleza em pessoa”.
Apesar da diferença etária, existe verdadeira ternura entre os amantes, e a relação só termina, ao fim de sete anos, perante a concretização do casamento que a mãe de Fred – a quem tratam por “Hárpia Nacional” – lhe negociou com uma jovem beldade, paciente e nada estúpida, filha de uma mulher do mesmo meio.
A iminência do casamento é anunciada logo no início da narrativa, a qual se centra nas consequências da separação de Léa e Fred. Ela disfarça o desgosto, afasta-se e procura convencer-se que a relação foi igual às anteriores, e não “o amor que se tem só uma vez”. Por seu lado, ele questiona se conheceu a felicidade sem o saber, lamentando “tudo quanto não tinha saboreado durante a sua vida miserável de queridinho e rico”, e duvida da sua capacidade de passar sem ela.

Para além da componente romântica, destaca-se na obra a descrição do ambiente luxuosamente decadente onde decorre a “vida agitada dos desocupados”, entre convívios, refeições, viagens, jogos e algumas drogas, com uma espécie de cavalheirismo a presidir às relações de camaradagem entre rivais. É a este mundo pleno de ambiguidades morais que Fred volta depois da experiência da Primeira Guerra Mundial, em “O Fim de Chéri”, publicado originariamente em 1926 e adicionado à primeira parte da história nesta edição – que tem a peculiaridade de conter a tradução dos textos por José Saramago.
Fred aproxima-se agora dos 30 anos, lida mal com as mudanças que o espelho reflecte e repete a pergunta “Que faço eu aqui?”. A esposa desdenhada trabalha com feridos de guerra num hospital e envolve-se com um médico, enquanto ele permanece ocioso. Um comparsa que antes era visto como inferior abriu um dancing, ganhou dinheiro e maturidade, e faz-lhe notar que já não é tão rico como dantes. Mas o maior golpe é o reencontro com Léa, que envelheceu e engordou, aparentemente sem complexos, para incredulidade do ex-amante.
O mal-estar causado pela comparação entre passado e presente determinará o final de Chéri – o retrato de um homem perturbado pela desesperança face ao envelhecimento e incapaz de construir um futuro à altura das suas expectativas.











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