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“Breve História da Bebedeira” | Mark Forsyth

Por Pedro Miguel Silva · Em 23/07/2025

Seja o leitor um bebedolas compulsivo, um consumidor ocasional do pecado etílico ou um fervoroso adepto da vida abstémia, “Breve História da Bebedeira” (Casa das Letras, 2024) é um livro obrigatório para juntar a uma das suas estantes, capaz de fundir o espírito enciclopédico com um raro espírito de comédia.

Em pouco mais de 250 páginas, Mark Forsyth – que diz recear “não saber realmente o que é a embriaguez” -, viaja através de 10000 anos de História, contando “como, porquê, onde e quando a Humanidade de embebedou – desde a Idade da Pedra até ao presente” – como se pode ler na capa dura desta edição.

Um dos exemplos do humor etílico de Mark Forsyth surge desde logo na introdução, quando nos conta sobre as diferenças entre os ingleses – e nós, europeus – e os suris no que diz respeito ao consumo de álcool no meio laboral: “É o que os suris fazem quando bebem; como diz o ditado: «Onde não há cerveja, não há trabalho». Apenas como pormenor de natureza técnica, chama-se a isto bebida transacional: beber para marcar a transição de um momenmto do dia para outro. Em Inglaterra bebemos porque acabámos de trabalhar, os suris bebem porque começaram”.

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São 18 as paragens nesta viagem breve, que olha para as armadilhas e os deuses da embriaguez, “de Ninkasi, a deusa suméria da cerveja, aos quatrocentos coelhos bêbados no México”: Em Evolução, a teoria do macaco bêbabdo é o mote para revisitar experiências com animais e álcool; A pré-história da bebida mostra-nos o nascimento da agricultura: “começámos a cultivar a terra porque queríamos bebida”; As tabernas sumérias apontam as prostituas como as melhores guias para dar com uma taberna, sítios propensos a uma classificação duvidosa: “…o sítio é escuro, tem um cheiro penetrante e muitas moscas”; O Antigo Egipto serve-nos uma série de factos históricos bestiais, como estes dois: “Não sabemos praticamente nada sobre os proletários nilóticos, excepto que morriam jovens e usavam pouca roupa”; “Para os egípcios, álcool era sinónimo de sexo e, da mesma maneira, sexo era sinónimo de álcool”; O Simpósio Grego apresenta-nos a Dionísio, à embriaguez e a uma máxima para a vida: “Nunca recusemos um convite para uma festa. Nunca, façamos o que fizermos, tentemos banir a embriaguez”; Beber na Antiga China junta à festa uma série de factos inventados, como lagos de vinho e um imperador que montava alguém como um cavalo sempre que bebiam – estando sempre a beber, era um problema sério para o cavalo; em A Bíblia, ficamos a saber a primeira coisa que Noé fez depois do Dilúvio: plantou uma vinha. Afinal, “é compreensível que estivesse a necessitar de uma bebida”; O Convívio Romano distingue-se do grego pelo espírito do armanço, revelando os romanos como “os percursores do pedantismo em matéria de vinho”; A Idade das Trevas aponta o vinho como a razão da existência da Inglaterra anglo-saxónica; Beber no Médio Oriente faz uma prova cega de vinho entre cristãos e muçulmanos; O Sumbel Viking dá-nos a conhecer Odin, o bêbado que mantinha o estômago vazio; A Casa de Ale Medieval aponta as diferenças entre uma estalagem, uma taberna e uma casa de ale, contando também a fabulosa história do nascimento dos pubs; Os Astecas entregavam-se de alma e coração ao pulque, “uma bebida estranha, branca, bastante viscosa e com uma graduação alcóolica semelhante à da cerveja ou da sidra”; A compulsão do Gin é um capítulo para ler pelo menos duas vezes, seja pela história de Madame Genebra, a aula sobre controlo de drogas ou o final épico; A Austrália, criada como colónia seca, cedo vê o rum tornar-se um instrumento de controlo social; O Saloon do Oeste Selvagem mostra-nos que a conversa sobre as portas dos saloons não passa, afinal, de um mito; A Rússia é um capítulo atravessado pela ironia, que nos dá a média do consumo de um homem russo por dia; a fechar temos a A Lei Seca, apresentada como “a lei mais estúpida da história”, que serve também para um retrato mais lato – e brincalhão – da estupidez americana.

Mostrando que a embriaguez é um estado universal, diferindo apenas na graduação escolhida por cada um, Mark Forsyth mostra-nos o caminho do futuro, mesmo que esse caminho seja o da ameaça da extinção. Se isso acontecer, é pegar na garrafa que estiver à mão e apanhar a primeira nave para fora daqui. “Será uma grande viagem. Enquanto saímos da atmosfera deixando a velha Terra para trás, lá estarão os deuses para nos dar as boas-vindas (…). E nós embrenhar-nos-emos, ébrios, ao encontro do infinito”. Brindemos a Mark Forsyth por esta garrafa literária.

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Pedro Miguel Silva

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