No meio de tantas e tantas ostras que nos chegam com o epíteto de romance, “Beautyland: Terra Bela” (Topseller, 2025) traz dentro uma pérola. Escrito pela norte-americana Marie-Helena Bertino, Beautyland move-se entre o humor e a comoção, numa história com muita poesia e invenção sobre o que é ser-se humano, sobre o desejo que nos move de nos ligarmos a outros seres.
Adina Giorno é, como nos conta a narradora, um milagre interstelar, nascida – ou caída do céu – “precoce, enrugada e amarela”, no mesmo dia em que a Voyager 1 partiu para o espaço estelar. Alguém que tem uma percepção incomum de tudo o que a cerca, e que viverá a sua vida acreditando ser uma enviada de uma espécie alienígena distante, com quem vai comunicando através de uma máquina de fax avariada e resgatada ao lixo. A missão que o seu planeta, cujo nome impossível de pronunciar “soa a um grilo a saltar para cima de um prato de arroz”, é tomar notas, algo que faz em curtas missivas onde regista as suas cirúrgicas observações sobre o que os humanos sentem, dizem e agem.
Nestas observações, que escreve com a paixão de quem não esquece uma página do diário, descobrimos o humor refinado de uma criança precoce, seja sobre Carl Sagan, Philip Glass ou o facto de, com tanto alimento mole para levarem para a escuridão de uma sala de cinema, “os seres humanos não escolheram Fig Newtons ou caramelos, alimentos silenciosos, mas sim pipocas, o som mais barulhento da Terra”.

Colocada num programa para sobre-dotados, Aldina trata de ir conhecendo cada vez melhor esta espécie que a fascina, seja comprando velhos livros na feira da ladra ou visitando, com a sua mãe, a Beautyland, “o tipo de loja vou-só-lá-num-instante que contém o que os humanos acreditam ser necessário”, como álcool etílico ou rolos de esponja. Ao contrário de um calendário – lunar ou de parede -, a passagem do tempo é transmitida, ao leitor, através de fenómenos espaciais ou das calças e suas transformações, um olhar de espanto – e informativo – sobre o mundo humano e natural: “Estamos em 1991 e a moda das calças de ganga estilo aladino cedeu a um corte mais justo e estreito que deixa espaço para botas volumosas. São descobertos os primeiros exoplanetas a orbitar PSR B1257 + 12B, um pulsar na constelação de Virgem. Um pulsar é um cadáver de uma estrela que explodiu e que gira muito rapidamente”.
Marie-Helena Bertino olha de um planeta próximo – mas tão distante – para a solidão e a busca humana por contacto e compreensão, e fá-lo com humor, poesia, comoção e, sobretudo, uma imaginação excelsa, numa viagem tragicómica sobre a existência. Depois de lerem Beautyland, parem para respirar e vejam o mundo com outros olhos. Afinal, somos todos Adina Giorno.











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