Grant Morrison é, no universo dos comics, alguém pronto a sacar do bolso uma revolução tão fácil de montar como uma estante do IKEA. Em 2001, depois de ter passado com distinção um capítulo dedicado à Liga da Justiça, foi responsável por incutir um novo espírito a um grupo de super-heróis conhecidos por X-Men. O resultado foi New X-Men, série que trocou as idas ao ginásio por noites passadas em balcões de bares suspeitos, com relações amorosas à beira de um ataque de nervos, tráfico de órgãos, novas espécies de mutantes ou a substituição certeira dos fatos de licra de corte clássico por elegantes blusões de cabedal – e outros adereços capazes de figurar num desfile da Moda Lisboa -, sempre com muita conversa existencialista pelo meio.

Chegado a 2018, Morrison ficou responsável por uma nova revolução, ao conferir uma nova vida ao sisudo Cavaleiro das Trevas. “Batman: Volume 1” (Devir, 2025) é Morrison em forma superlativa, reunindo algumas duas histórias icónicas e provocadoras que escreveu sobre o Homem-Morcego – “Batman & Son” ou “Batman In Bethlehem”, onde Bruce Wayne abraça uma complicada parentalidade, a que se juntam conteúdos adicionais de algumas revistas DC Universe.
Logo nas primeiras páginas, vagueando pelo Quarteirão Vazio, Bruce Wayne mostra-nos um estado de espírito pouco animador: “A minha alma parece sombria e sinto-me doente. Perdi a determinação”. Perdido em guerras espirituais enquanto lida com a morte de Joker, às mãos de um tipo vestido de Batman, Bruce tenta seguir o conselho do sempre certeiro Alfred, o indispensável mordomo: sair de Gotham mais vezes e aprender a ser o Bruce Wayne – o mesmo que voltar ao jogo do engate.

Numa dessas festas, onde para além de uma apreciação crítica de Wayne sobre a arte – “Se há coisa que odeio, é arte sem contexto” – assistimos a uma invasão de Morcegos Humanos Ninjas, Wayne cruza-se com Talia, filha de Ra´s Al Ghul, que lhe dá uma notícia inesperada. É pai de um filho que está a fugir ao controlo de Talia, que o deixa entregue a Bruce. As primeiras palavras que o filho lhe dirige são promissoras – “Pai. Imaginava-te mais alto.” -, assim como as dirigidas a Robin – “Não sejas condescendente, senão vou-te ao focinho.” -, figura que tentará afastar para tomar o seu lugar ao lado do pai.
Uma série imperdível para os fãs de Batman, que se vê aqui responsável por um filho criado num ambiente pouco dado ao mimo: “A minha mãe nunca esteve presente. Dirigir um Império do Crime não deixa muito tempo para criar laços”. Os volumes 2 e 3, de que falaremos mais à frente no calendário, estão já disponíveis nas livrarias.











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