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As Primeiras Novidades Literárias de 2026: Grupo Guerra e Paz

Por Deus Me Livro · Em 19/01/2026

Continuamos a nossa viagem pelas primeiras novidades literárias de 2026, agora com um olhar sobre o que o Grupo Guerra e Paz preparou para o arranque do ano. Palavra ao editor Manuel S. Fonseca.

GUERRA E PAZ

Quero lá, querem lá os meus leitores saber do frio de Janeiro quando têm à mão as edições afrodisíacas da Guerra e Paz, a começar por “A Mitologia Grega de A a Z”, de Luc Ferry, obra povoada de Afrodites (ou Vénus), de Eros e da embriaguez de Dionísio: a desordem e a volúpia dos deuses gregos, a companhia de sereias e musas faz deste livro e dos seus mistérios uma leitura abrasadora. De Os Livros Não se Rendem, colecção patrocinada pela gentileza e amor aos livros da Fundação Manuel António da Mota e da Mota Gestão e Participações.

Agora encostem-se sem preconceitos a António Botto se querem sentir o calor do que era um escândalo para o Portugal dos anos 50: no “Caderno Proibido”, como lhe chamou Botto, há nudez e abraços violentos, mas também a ternura de, e cito, «foder um corpo delgado, / Seios duros, pequeninos […]/ Ancas descidas de mocinho…». Nunca publicado até hoje, este erotíssimo inédito foi organizado e prefaciado pelo professor Victor Correia.

Um muito mais contemporâneo afago dos corpos, eis o que inunda as narrativas ficcionadas (ficcionadas?) que o romancista Virgílio Castelo (sim, também é actor) assina em “Consumo Obrigatório”. Uma viagem por boîtes, discotecas, bares bem ou mal-afamados, viagem que é a autobiografia de toda uma geração: a sua, caro leitor?

Depois disto, de que outra coisa vos iria falar que não fosse de lendas e contos de fadas. Só queria que tivessem o livro na mão. É das coisas mais bonitas que já fiz na vida: chama-se “Lendas e Contos de Fadas Japoneses” e, das suas 144 páginas, 47 são de ilustrações japonesas deslumbrantes, de cores arrebatadoras. Por este livro, Deus e os demónios perdoar-me-ão todos os desacatos que me queiram arrolar: quem não quer ler contos como «O cortador de bambu e a criança da lua» ou «O pardal com a língua cortada»? É o primeiro de uma série: a seguir vêm aí os contos de fadas chineses.

Parece também um conto de fadas: um homem fala a uma multidão e declara bem-aventurados os mansos e humildes, os perseguidos e os que sofrem. O homem tem 30 anos, dá pelo nome de Jesus Cristo, e essa pequena maravilha retórica, o “Sermão da Montanha”, que nos instiga a amar os nossos inimigos e a oferecer a outra face a quem nos agrida, é uma das mais belas utopias já ditas e escritas por nós, os humanos. Agora, com uma apresentação que eu, Manuel S. Fonseca, assino, o Sermão da Montanha junta-se ao “Cântico dos Cânticos” ou à “Alegoria da Caverna”, na colecção Livros Brancos.

O professor de filosofia Alexander Douglas dá, creio eu, eco ao Sermão, quando nos avisa contra a obsessão do eu. Leiam um dos mais lúcidos livros do ano passado no Reino Unido: “Contra a Identidade, A Sabedoria de Escapar do Eu”, diagnóstico de uma das grandes aflições contemporâneas.

Venha de lá o passado. De um historiador medievalista, Pierre Bauduin, “Os Vikings” é uma magnífica e actualizadíssima apresentação de uma civilização que nos desafia. Não se esqueçam das violências e pilhagens, mas leiam-no para descobrir mil outras facetas de uma civilização pletórica.

Em Janeiro, dois estudos e um sombreiro? De provérbios nada sei, mas sei que vou publicar dois estudos com mérito. “Macau: A Última Transição – Vasco Rocha Vieira” (1991-1999), é um rigoroso trabalho de fundo do historiador Alfredo Gomes Dias. Temos a honra de o publicar em parceria com a Fundação Jorge Álvares.

Tal como em parceria com a Academia Militar e o Instituto Universitário Militar se publica “Guerra e Disrupção”, textos de dez especialistas sobre estratégia e ciência militar, com coordenação de Luís Barroso, António Paulo Duarte e Pedro Ferreira.

Reservo os últimos suspiros de Janeiro para duas fortes e convictas apostas polémicas. Primeiro para o extraordinário e tocante “Refém”, de Eli Sharabi. Eli foi um dos judeus raptados pelo Hamas no 7 de Outubro e esteve em cativeiro 491 dias. Narra esse tormento de forma crua, directa, sem rodeios. Terão a mulher e as duas filhas sobrevivido? Um documento que dói e fere muito mais do que qualquer ficção.

“Ecrãs, um desastre sanitário”, da neurologista Servane Mouton, é um panfleto brilhante sobre o uso dos ecrãs, dos smartphones, e sobre os terríveis efeitos detectados. Baseado nos mais recentes estudos, este livrinho, que se lê de um fôlego, com bela tradução de Miguel Graça Moura, é um vivíssimo alerta: «antes que seja tarde demais.»

EUFORIA

A chancela que a Rita Fonseca criou ganhou a carta de alforria. Cresceu em 2025 213% em relação ao ano anterior e tem um público definido, muito específico. Passa por isso, agora, a ter uma newsletter própria, tal como terá o seu próprio site.

Despeço-me, ainda assim, dizendo-vos que em Janeiro há dois romances sufocantes. Em “Tóxico”, de Nicole Blanchard, a heroína casa primeiro com um homem abusivo e apaixona-se, depois, por um recluso perigoso. Se há beijos intoxicantes? Bom, no mínimo.

Já a autora Navessa Allen (há 52 semanas no top do NYT bestsellers) oferece-nos “O Crime de São Valentim” e deixa-nos uma inquietação: pode alguém ser enterrado vivo por mero acaso?

GRADIVA

Começa, agora, em Janeiro de 2026, a nova Gradiva, e da mão de Guilherme Valente, seu fundador, para a minha mão passa o mesmo testemunho, como se estivéssemos numa corrida de estafetas. O livro que inaugurou esta casa editora há 45 anos é o primeiro livro desta nova vida da Gradiva: “Delírio e Sonhos na Gradiva de Jensen”, de Sigmund Freud. Tal como o Guilherme, acredito no valor simbólico de um livro que exala o perfume do que Freud chamou a «cura pela sedução e pelo amor». Para começar em beleza, é este o primeiro dos oito títulos Gradiva deste mês.

E agora aligeiremos: tem estado um frio de rachar. Para aplacar os lobos de Inverno pedi ajuda ao Calvin & Hobbes, de Bill Watterson. À lareira ou entre cobertores, “Calvin & Hobbes, O Ataque dos Demónio da Neve” resgata-nos e devolve-nos a alegria, o riso e o sorriso, desenho a desenho, em edição novinha em folha.

Passam os Invernos e o nosso descontentamento não nos deslarga: tanta é a sede e fome de plenitude, a sede e fome de perfeição! E é sobre essa busca espiritual, essa busca de uma harmonia universal, que nos escreve Luís Portela, em “Ser Espiritual, da Evidência à Ciência”. Prometo-vos uma viagem de um prazer inebriante – e de um rigoroso desafio – do que a série da RTP, «Para Além do Cérebro», foi há pouco veículo, uma viagem que nos religa a uma outra dimensão, a da Energia Universal. Utopia? E será que viver sem utopia é viver?

E por que utopia – ou só realidade – nos guia Carlos Fiolhais em “A Inteligência Artificial de A a Z”? Com mestria, Fiolhais, porventura o nosso melhor pedagogo, leva-nos da entrada «agentes inteligentes» à entrada «Zuckerberg», preparando-nos para o avassalador mundo de amanhã: a inteligência de Fiolhais disseca a complexa Inteligência Artificial. Um choque? Sim, enciclopédico.

E há um novo livro na colecção Ciência Aberta: de Elói Figueiredo e C. Matias Ramos, “A Ciência Descobre, a Engenharia Cria”. O subtítulo, «uma visão em doze axiomas e meio» deixa-me tão perplexo como encantado, e o que me tranquiliza é que Carlos Fiolhais, no posfácio, me jura tratar-se de «uma magnífica introdução à engenharia». Com o apoio mecenático do dstgroup e o patrocínio da Ordem dos Engenheiros, este é o livro que nos ensina que a função da engenharia é simplificar, mas que se o risco se minimiza, tal não significa que se anule. Axiomas.

Há dois livros de Janeiro que nos fazem pensar a Europa, a do passado e a do futuro. Um, “O Esplendor das Amizades: A experiência portuguesa de Edgar Morin”, é coordenado por Guilherme d’Oliveira Martins e é um esplêndido relato do que era o Portugal da ditadura e de como os católicos do Tempo e o Modo descobriram a Europa através de Edgar Morin e de como Morin descobriu, em amizade, o melhor de Portugal.

Já em “O Mundo de Amanhã: Uma Europa Soberana e Democrática”, o austríaco Robert Menasse partilha a morna angústia do nosso tempo europeu, cheio de dúvidas, défices e conflitos, procurando, ainda assim, arrancar desse pântano um frágil módico de esperança. A fragilidade será uma arma?

Onde começa e onde acaba a fragilidade em Ian McEwan? Na delicadeza das ideias ou na argúcia psicológica? Na sua narrativa tão minudente? E de onde surge, abrupto, o simbolismo quase brutal desses “Cães Pretos”, que dão título a este romance humano, demasiado humano? Que cães são esses? Autênticos, só cosa mentale, metafóricos? A verdade é que são vorazes e ferozes.

São os livros Gradiva de Janeiro. Oito: da ciência ao cartoon, do pensamento à grande ficção.

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