Já imaginou como é viver num país em guerra e não ter liberdade para ser quem realmente é? Marjan Kamali apresenta-nos, através do seu livro “As Leoas de Teerão” (Topseller, 2025), um Irão opressor e mortífero. Viajamos a medo pelas suas ruas, de mãos dadas com as duas personagens principais e a certeza de que somente esta amizade, corajosa e intemporal, nos pode salvar dos males que nos vão sendo apresentados.
Nas primeiras páginas não antevemos a dureza da história. De forma simples e afectuosa são-nos apresentadas Ellie e Homa, duas meninas de 7 anos com origens bem distintas, que se cruzam nos anos 50 e se tornam afectivamente inseparáveis.
Conhecemos ambas as famílias: criamos afeição pelos pais pobres de Homa – compreensivos, bons ouvintes, que alimentam o seu sonho; revoltamo-nos com a mãe de Ellie e a sua apatia, falta de honestidade e atenção para com a filha; fazemos as malas com Ellie, que regressa ao mundo dos ricos e das futilidades; e limpamos as lágrimas de Homa, após uma perda e a prisão do seu pai comunista. Vivemos o primeiro dia na escola nova de uma e a luta diária de outra por melhores condições e comida na mesa.
Ao longo da trama assistimos ao desenrolar desta amizade ímpar e criamos afeição pelas duas personagens, sentindo como nossa cada uma das suas dores. Tornamo-nos mais reivindicativos com Homa, percebendo o que a move, e gritamos com Ellie, para que nunca se esqueça de quem foi outrora.
As Leoas de Teerão crescem a cada página e é nos contada, na voz de cada uma delas, cada fase das suas vidas. Separadas durante anos, estas personagens dão-nos duas perspectivas diferentes das mulheres iranianas, apresentando os problemas de cada classe e os direitos e deveres que lhes são incumbidos.

Apesar dos quilómetros que separaram, em certa parte da vida, Ellie e Homa, o pensamento nunca as manteve distantes e a sós. Depois de tempos silenciosos, Homa volta a contactar a amiga com um pedido especial, que muda mais uma vez o fado de ambas.
Viciante, arrebatador e encorajador, assim é esta obra de arte de Marjan Kamali. 367 páginas de luta pelo feminismo e pelos direitos das mulheres, onde vislumbramos a vida e a cultura iranianas assistindo, gradualmente, ao silenciar das suas mulheres. Mulheres que, quando se faziam ouvir lutando pelos seus direitos, eram presas e torturadas a gosto dos seus compatriotas.
Assistimos ao crescer e florescer das duas flores plantadas pela autora, e regamos as mesmas com carinho a cada virada de página. A coragem que contém cada linha deste livro enche-nos de forças, para erguermos a cabeça e lutarmos por um mundo melhor. Ser-se mulher não pode jamais representar um entrave, ser um fardo extra que se carrega. Este livro dá a conhecer histórias fictícias, mas é certo que existem muitas Homas e Ellies no mundo.











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