Viajando dos Alpes Franceses às montanhas do Afeganistão em dois períodos temporais distintos, “A Universidade das Cabras” (Arte de Autor, 2024) – nome dado por um escritor inglês para se referir ao ensino nómada – é uma ode ilustrada à Educação e à defesa da escola como um santuário, muitas vezes o único lugar que permite a emancipação individual e a conquista da liberdade.
Em 1833 acompanhamos os passos de Fortuné Chabert que, por entre a neve, percorre o caminho dos vendedores ambulantes, de Ubaye para Durance. Com 17 anos, Fortuné é um “vendedor de escrita”, um professor itinerante que usa um chapéu com três penas, símbolos da escrita, da leitura e dos números. Em cada aldeia por onde passa, os pais fornecem casa, alimentação e uma sala de aula, para além de um parco salário. Porém, quando o Ministro da Instrução Pública decide exigir o diploma para o ofício de professor, Fortuné torna-se um vendedor ambulante de livros, o que lhe permitirá rever os miúdos das aldeias onde antes ensinava. Na bagagem, Fortuné leva romances de cordel, contos, receitas médicas e veterinárias e, não menos importante, “histórias de malfeitores, de crimes de estarrecer, de acontecimentos incríveis e de curiosidades da natureza”.

Após 15 anos de muitas frustrações, Fortuné decide, como milhares de outras almas, rumar aos Estados Unidos, embarcando na louca corrida ao ouro contando com os “acasos do destino”. O sonho americano irá esbarrar na intolerância humana, representada pelo espírito implacável da religião e da supremacia perante o que é diferente: “Matar o índio para salvar o humano que existe dentro dele, é essa a nossa missão”.
No tempo presente, Sanjar percorre as montanhas do Afeganistão com um quadro de ardósia às costas, com o mesmo espírito de missão do predecessor Fortuné. Com Sanjar, lança-se um olhar ao ensino no Afeganistão, numa escola onde as miúdas não entram e o código religioso tem de ser estritamente aplicado. De modo a proteger os seus alunos, Sanjar vê-se obrigado a dar o salto para o continente americano, conseguindo, devido às ameaças que sobre si pesavam, um visto particular de imigração e uma bolsa de estudo do governo americano e do comité para a protecção dos jornalistas, ocupando uma vaga de professor numa universidade. Porém, quando dois professores lhe sugerem, sem rodeios, usar uma arma nas suas aulas, Sanjar ver-se-á confrontado com a sua ética perante a violência, sofrendo da desconfiança dos supremacistas brancos.

Christian Lax arranja forma de unir estes dois momentos temporais distintos através do papel atribuído a Arizona Flores, uma jornalista do Phoenix Post, num álbum que elege a educação como o meio de combater qualquer tipo de obscurantismo e intolerância, capaz de formar cidadãos com espírito cívico e de abraçar a diferença. Os desenhos, que por vezes parecem aceitar de bom grado a imperfeição, fazem por vezes recordar Hermann, numa utilização muito contida das cores. Para o final está guardado um posfácio de Pascal Ory, da Academia Francesa, que começa com uma questão dirigida ao leitor que une as pontas deste livro: será a História um eterno recomeço?











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