Era difícil ter pedido melhor início para Angoulême, a colecção da Devir que irá publicar autores premiados num dos mais importantes festivais de banda desenhada mundiais – até final deste ano, está prevista a edição de oito álbuns. “A Triologia Nikopol” (Devir, 2025), do autor sérvio Enki Bilal, foi o vencedor do Grande Prémio do Festival de Angoulême em 1987, e ganha agora uma nova reedição em capa dura, que só peca pelo formato reduzido que impede de desfrutar plenamente do festival visual proporcionado por Bilal.

Estamos em Paris, cidade que vive sob uma ditadura num futuro para lá do distópico. O grande protagonista dá pelo nome de Alcide Nikopol, um astronauta que regressa à terra 20 anos depois da partida, acordado de um sono criogénico imposto por um tribunal militar francês, que o condenou por deserção.
Na terra, o deus egípcio Hórus decide usá-lo como receptáculo para uma vingança contra os seus pares, que por esta altura flutuam sobre Paris numa nave com a forma de uma pirâmide, aguardando pelo resultado das eleições e negociando com Choublanc, que pretende exigir a imortalidade em troca do combustível que os deuses precisam para a nave.

À semelhança de outros títulos de Enki Bilal, numa trilogia que se estende temporalmente por várias décadas, questiona-se a natureza do poder numa sociedade dita igualitária, as teias da corrupção, o conceito de identidade, o poder da imprensa ou as armadilhas da religião, num mundo onde o misticismo e a tecnologia coexistem nem sempre de forma pacífica. Tudo nos habituais tons azuis e nas sombras em que se move Bilal, que aqui perfuma a narrativa com muito Baudelaire à mistura. Très bon.











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