“Baixei a cabeça, porque não sabia que fazer nem que dizer, e pensei que tinha de amachucar a tristeza, torná-la depressa pequena, para que não me ande às voltas, para que não se espalhe nem um minuto pelas veias e em torno de mim. Transformá-la numa bola, numa bolinha, num grão de chumbo. Engoli-la.”
Nunca saberemos como poderia ter sido a vida de Natàlia se as circunstâncias fossem diferentes daquelas que Mercè Rodoreda (1908-1983) descreve em “A Praça do Diamante” (Dom Quixote, 2025). É provável que também nunca compreendamos totalmente o que leva certas mulheres a unirem-se a homens dominadores, mau grado todos os sinais de alerta perturbantes. Talvez o caso de Natàlia, que nos fala em discurso directo, possa ser explicado pela sua fragilidade e solidão existencial. Ou talvez seja vão procurar explicações. O certo é que, na Barcelona de inícios da década de 1930, depois de um dia de trabalho a aviar doces numa pastelaria, é desafiada por uma amiga a ir a uma festa popular, dando por si “nova e sozinha na Praça do Diamante, à espera que rifassem cafeteiras”. O jovem que a convida para dançar insiste em tratá-la por uma alcunha que lhe desagrada – “Pombinha” –, anuncia-lhe que casarão dentro de um ano, mesmo após ela lhe ter dito que já tem noivo, e persegue-a quando ela tenta fugir. Tendo perdido a mãe que poderia aconselhá-la e estando o pai casado com outra, sentindo não saber bem o que faz no mundo, Natàlia acaba por ceder ao assédio deste homem que a atormentará de várias formas.

Este é o ponto de partida para a narração da história de vida de Natàlia. Uma vida que poderá assemelhar-se a muitas outras, vergada pelos dissabores familiares e pelo excesso de trabalho mal apreciado: “ninguém reparava em mim e todos pediam mais como se eu não fosse de carne e osso”. Uma vida na qual se vê, com frequência, limitada a projectar a sua raiva e a sua pena na Natureza: “O mar não parecia de água: estava cinzento e triste porque havia nuvens. E o inchaço que lhe vinha de dentro era a respiração dos peixes e a raiva dos peixes era a respiração do mar […]”. Todavia, essa existência é marcada por dois acontecimentos menos vulgares: a decisão do marido de construir um pombal – cujos cheiros e ruídos também atormentarão a esposa – e o eclodir da guerra civil espanhola, a cujos combates ele se junta.
Após a descrição de um quotidiano que, parecendo simples, diz muito sobre uma sociedade, o enredo centra-se na forma como Natàlia, mesmo sem ser politizada, sofre profundamente com a guerra, sendo obrigada a lutar mais do que nunca para sobreviver. Para além da guerra civil, há outras guerras a serem travadas, e há um grito que demorará anos a ser libertado. É o percurso até esse dia que a autora catalã multipremiada reconstitui, alternando entre o banal e o poético, neste romance publicado originalmente em 1962 e que não perdeu nenhuma da sua relevância.











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