Nadia Comaneci, “a pequena fada que nunca sorria”, é a semente da dissidência que Lola Lafon escolheu para protagonista do romance “A Pequena Comunista que Nunca Sorria” (Antígona, 2024). Uma figura ao mesmo tempo banal e excepcional, uma ginasta-robot transformada em poster do regime de Ceausescu, até ao momento em que deixou de ser uma “rapariguinha” e se transformou em mulher.
Para este livro, Lola Lafon trabalhou a partir de uma documentação popular facilmente acessível por todos, preferindo mergulhar em artigos de imprensa ou em granulados vídeos dispersos pelo youtube a conhecer pessoalmente Comaneci – algo a que sempre torceu o nariz mesmo quando a oportunidade se colocou, não querendo deixar-se contaminar por um relato na primeira pessoa que iria trair o imaginário de um conto de fadas com (largos) toques de decadência.

Lola Lafon tem o mérito de transformar o desporto num romance feminista e político, através de um olhar que mistura o fascínio com um certo distanciamento. O resultado é um romance que se debruça sobre o julgamento de um corpo; um corpo que se transformou numa prisão auto-imposta e num troféu de um regime implacável, e que acabou por não escapar também a um olhar implacável do país da liberdade que a acolheu, chamando-a – num artigo saído na imprensa – de “princesa mimada e estragada” enquanto exigia a sua devolução à proveniência.
Ao traçar uma biografia descomprometida de Nadia – “Como posso inventar tanto? A verdade é que ela me dá margem para isso!”, conta-nos a narradora a dado momento -, que aborda a provação da infância, um regime nutricional apertado, os processos de treino de Béla – o singular treinador – ou a luta (inicial) contra o deslumbramento ocidental, Lola Lafon oferece também um olhar político, mas é sobretudo o corpo feminino que está no centro deste romance, um corpo transformado num campo de batalha até ao descarte final.











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