Philip Roth (1933-2018) é um dos maiores escritores da segunda metade do século XX, romancista americano reconhecido por obras que exploram dilemas pessoais e temas como sexualidade, identidade judaica e americana. Para além de livros célebres como “O Complexo de Portnoy” (1969), que lhe trouxe fama e controvérsia, criou também um universo literário com personagens recorrentes, como Nathan Zuckerman.
Nathan Zuckerman é um escritor, personagem fictício que serve como protagonista e narrador em vários dos romances de Roth, frequentemente visto como seu alter ego. Em “A Orgia de Praga” (D. Quixote, 2024), Roth explora a relação entre a arte, a opressão totalitária e a identidade judaica, através da visita de Zuckerman a Praga em 1976. O livro, que funciona como um epílogo da trilogia Zuckerman Acorrentado, retrata a situação dos artistas oprimidos por regimes totalitários. É o caso de Praga, em 1976, quando Zuckerman chega à capital checa então sob o regime comunista da era Brezhnev, onde a liberdade de expressão é limitada pela procura incessante de uma hegemonia política e cultural, que facilmente se sentia ameaçada pela diversidade.
Zuckerman, já então um escritor consagrado, acolhe o repto de ir a Praga recuperar os manuscritos inéditos de um escritor iídiche. A posse desses manuscritos acaba por tornar-se uma forma de resistência, contra a tentativa do regime de apagar a herança cultural judaica. Para tanto, Zuckerman serve-se da sua aparente imunidade política e artística e envolve-se com círculos de intelectuais e artistas checos que, na clandestinidade e por falta de outras opções, encontram no sexo e no álcool uma fuga que resvala para a decadência. O resultado é um relato que se assemelha a uma comédia de costumes, farsa política e literária, ou retrato pitoresco da dimensão que pode tomar a paranoia e a loucura da vida sob constante vigilância.

A história acaba também por aflorar questões sobre o poder da literatura, num ambiente onde a liberdade de expressão não existe, ou a capacidade de os artistas sobreviverem na oposição e preservarem a liberdade nas suas vidas privadas – e na forma como, socialmente, a sua arte convoca protecção ou perseguição.
Zuckerman chega a Praga com a ingenuidade das suas certezas americanas sobre as liberdades civis, mas rapidamente é absorvido pela opressão característica dos regimes que procuram controlar a vida dos cidadãos, tanto na esfera pública quanto na privada, fazendo uso de uma intensa doutrinação ideológica e anulação da liberdade individual em nome de um suposto bem comum.
“A Orgia de Praga” é apresentado como um diário na primeira pessoa de Zuckerman, fazendo uso de uma linguagem crua, divertida e, em certos momentos, vulgar, explorando a intensidade de alguns momentos de tensão e erotismo. Decadência e resiliência, talvez sejam duas dimensões dominantes da resistência que Roth parece querer destacar quando, na trilogia – e neste epílogo -, dá nota da vida pouco fácil da arte, seja pela falta de reconhecimento e estabilidade ou pelo preconceito social e preservação da identidade.











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