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A Mãe de Frankenstein, Almudena Grandes, Deus Me Livro, Porto Editora, Crítica
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“A Mãe de Frankenstein” | Almudena Grandes

Por Isabel Daires · Em 08/07/2022

A morte de Almudena Grandes, em Novembro de 2021, aos 61 anos, interrompeu tragicamente a série “Episódios de uma Guerra Interminável”, na qual a autora disseca os negros anos da ditadura franquista e a pesada herança que esta legou à sociedade espanhola. Dos cinco volumes completos – o sexto ficou por concluir –, dois já foram publicados em Portugal: “Os Doentes do Doutor García” (Porto Editora, 2020) e “A Mãe de Frankenstein” (Porto Editora, 2022), que atingem um equilíbrio perfeito entre a liberdade criativa e a verdade histórica.

Embora os enredos sejam independentes, é um prazer identificar, nesta obra mais recente, referências a personagens de “Os Doentes do Doutor García”, em papéis secundários. Já os protagonistas, cujos pontos de vista acompanhamos, continuam a formar um trio, mas são bem diferentes dos anteriores.

A figura a que se refere o título deste livro chama-se Aurora Rodríguez Carballeira, e teve existência real: destacou-se na alta sociedade espanhola do início do século XX pela inteligência e independência, antes de se tornar infame por matar a filha a tiro. Tendo-a concebido e educado para ser um prodígio, arrogou-se o direito de destruí-la quando começou a desviar-se do seu ideal de perfeição. A paranoia fazia-a crer que nascera para aperfeiçoar o mundo e que a filha caíra sob o domínio de inimigos poderosos, desejosos de frustrar essa missão.

Acreditando até ao fim no seu poder de gerar uma nova Humanidade, Aurora acaba internada num manicómio que espelha a sociedade da época, com todas as suas desigualdades sociais e duplicidades morais, “uma miniatura patológica de um país doente”. Aí se cruzam, convergindo no seu interesse por Aurora, os outros protagonistas: Germán Velázquez e María Castejón.

Germán fugiu de Espanha com 18 anos, no final da guerra civil, e passou 15 exilado na Suíça, onde se formou em psiquiatria e participou nos ensaios clínicos de um fármaco inovador, a cloropromazina, capaz de eliminar os sintomas de doenças mentais julgadas invencíveis. O seu regresso é motivado, em parte, pela vontade de fazer a diferença, e a sua luta para modernizar a psiquiatria espanhola é também uma luta para modernizar a sociedade, o que o tornará exótico e incómodo, ao ponto de lhe recordarem várias vezes que a Espanha não é a Suíça.

A Mãe de Frankenstein, Almudena Grandes, Deus Me Livro, Porto Editora, CríticaMaría é a neta do jardineiro do manicómio. Aí cresceu, tendo aprendido a ler e a escrever com Aurora, que nunca lhe despertou medo e lhe abriu a mente à possibilidade de uma vida diferente da que lhe estava prescrita: “cozinhar, costurar e limpar”. Germán conhece-a como trabalhadora auxiliar da instituição, mas a cumplicidade e o companheirismo que se estabelece entre ambos transcende as barreiras sociais e mudará vidas. Através deles, bem como de outras personagens de grande densidade humana, a autora recria o ambiente repressivo da Espanha dos anos 1950, dando voz a inúmeras vítimas do franquismo, desde as que foram presas e mortas, àquelas que a sociedade constrangia a viver em prisões sem grades.

O resultado é um fresco histórico que cruza eventos a grande escala – como as guerras europeias e a revolução da psiquiatria – com quotidianos individuais marcados por diferentes graus de desesperança, deixando brilhar aqueles que, apesar de todas as vicissitudes, insistem em não se deixar derrotar pela vida.

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Isabel Daires

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