“Um drama burlesco estritamente baseado em acontecimentos reais… excepto nos casos em que não o fez”. É esta a sucinta, divertida e bem sumarenta apresentação de “A Corrida do Século” (Arte de Autor, 2024), um muito bem desenhado álbum sobre uma das mais loucas – e perigosas – corridas da história do desporto, que envolveu um calor insuportável, um terreno acidentado – mais de sete colinas – ou a dopagem de atletas, realizada pela própria organização da prova – James E. Sullivan, fundador do organismo de desenvolvimento da prática desportiva nos Estados Unidos, recebeu o cognome de “o sádico”.

José Luis Munuera (desenho), Kid Toussaint (argumento) e Sedyas (cor) partem para uma adaptação livre desta corrida alucinada, conseguindo imprimir um ritmo que segue em crescendo até à linha de meta. Os candidatos à vitória desta maratona de 1904, o primeiro ano em que os Estados Unidos da América organizaram os Jogos Olímpicos, são vários: Andarín Carvajal, “o homem que queria fazer a sesta”, carteiro de grande fôlego que chega de Cuba; Thomas Hicks, “o homem que não queria ser segundo”, e que acabou as suas últimas seis corridas em… segundo; Len e Jan, “os homens que se queriam matar desde a segunda guerra dos Bóeres“, três anos antes da grande corrida; ou Frederick Lorz, o grande favorito, “o homem que queria que falassem dele”.
Sem sinalização e com as ruas cheias, enfrentando passagens de nível ou sinais de trânsito virados ao contrário, sem receberem água pelo caminho, fugindo a cães raivosos e correndo em ladeiras acentuadas, cada um destes homens tentará cortar a meta em primeiro lugar, mesmo que para isso contornem um pouco as regras.

As ilustrações de Munuera – autor dos também recomendados “Um Conto de Natal” e “Bartleby, o Escriturário” – são um mimo, claramente com uma costela franco-belga e um piscar de olho ao cartoon, de grande e expressividade e muito cativantes, até para quem não tem por hábito passar os olhos por livros de banda desenhada.
Para o final fica reservado um especial “Nos Bastidores da Pior Maratona da História”, onde se enquadra a maratona de Saint-Louis no contexto histórico – e todos os seus antecedentes desportivos e jogos de bastidores -, se fala do espírito vingativo de James E. Sulliva, se descrevem as condições sub-humanas da corrida e se apresentam alguns dos principais concorrentes, incluindo um atleta com uma única perna que participou graças a uma prótese de madeira articulada e bastante sofisticada para a época. Quem disse que a História não podia ser contada de forma divertida (e bem ilustrada)?











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