Até que ponto a leitura de um livro pode ser arruinada por uma tradução? Muito, mesmo muito. Tomemos como exemplo “A Cidade e as suas Muralhas Incertas” (Casa das Letras, 2025), do japonês Haruki Murakami. Ao invés de nos transportar para o Japão rural, os tradutores parecem querer que visitemos uma povoação rural bem portuguesa, perdida no meio das montanhas, misturando expressões e ditos tipicamente portugueses com palavras que dificilmente julgaríamos pertencer ao dicionário da língua portuguesa. Eis alguns exemplos, e isto apenas até à página 150: “suei as estopinhas”; “está bem, abelha”; “com estes olhos que a terra há de comer”; “mantendo a casa num brinquinho”; “metidos numa camisa de onze varas”; “para baixo todos os santos ajudam”; “pôr na alheta”; “vai ficar piurso”; “sem entender pevide”. Uma opção que dificulta e muito a leitura deste romance, como se fôssemos constantemente obrigados a usar o travão para não embatermos de frente com parágrafos inteiros de delírio.
Traduções à parte, o mais recente romance de Murakami mantém todos os ingredientes dos anteriores, e não deixa de ser curiosa a ponte que constrói com Gabriel García Márquez, com quem o autor partilha um realismo impregnado de magia e fantasia, mundos não necessariamente distintos do real: “Mas pergunto-me se, ainda que a crítica o enquadre no critério de realismo mágico, aos olhos de García Márquez não se trata de mero realismo. Digo isto porque era esse o mundo em que ele vivia, no qual realidade e irrealidade se apresentavam entrelaçadas, indiferenciadas, e o escritor descrevia as cenas tal como as via”.
A cidade muralhada nasce de uma paixão de adolescência do protagonista por uma rapariga, que lhe revela a existência de uma cidade rodeada de uma alta muralha, situada num lugar do mundo que não existe nos mapas. Para conseguir encontrar a cidade, terá de conhecer o seu verdadeiro “eu”, desejando convictamente lá chegar mesmo sabendo que, ao fazê-lo, terá de abdicar de parte de si: a sua sombra, que irá morrer lentamente após se descolar do seu hospedeiro.

Uma cidade onde não existe curiosidade, e onde no lugar dos livros as bibliotecas guardam sonhos antigos, que só um leitor de sonhos poderá desvendar depois de a sua visão ser transformada. Onde não há qualquer interesse pela geografia ou pela história, e os animais se resumem a bestas de um só corno, muitas vezes incapazes de lidar com o frio gélido quando este se instala. E, também, onde parece ser impossível amar, num lugar habitado pelo mito e pelas contradições.
Murakami joga com diferentes linhas temporais, resultado das transformações físicas e mentais por que cada corpo e mente vão passando ao longo do tempo, abordando temas como o amor – e todos os seus desgostos e incumprimentos -, a identidade, a impossibilidade da repetição, a ideia de alma, a perda e o sofrimento, indo ao encontro de uma ideia por várias vezes repetida: “Somos apenas a sombra de alguém”. Há também uma homenagem aos livros e às Bibliotecas, últimos redutos da liberdade humana, ou o apontar do entusiasmo e da ilusão como os alimentos que permitem sobreviver às múltiplas quedas da existência. Os fãs do japonês não irão ficar desiludidos.











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