Foi preciso esperar 10 anos para que Ricardo Adolfo, prosador dotado de uma costela Tarantiniana, nos brindasse com um novo romance. O autor, que eleva o calão a património linguístico da literatura e o usa como arma de arremesso para um ideal feminista, é também o rei dos títulos literários, à boleia de delírios geniais como “”Os chouriços são todos para assar”, “Depois de morrer aconteceram-me muitas coisas” ou “Mizé, antes galdéria do que normal e remediada”. “A Chefe dos Maus” (Companhia das Letras, 2025), o seu mais recente livro, valeu os anos de espera, trazendo-nos mais um ideal de heroína, num mergulho sem braçadeiras nas atrocidades do mundo laboral e do submundo de Shinjuku, Japão, país onde o escritor nascido em Luanda vive há já uma pequena eternidade.
Tudo parecia correr pelo melhor na sucursal de uma empresa de criminosos, plantada num pouco visitado beco, até que chega da sede uma muito assertiva directriz: é preciso aumentar a diversidade nos quadros da direcção. A resistência faz-se sentir de pronto, cabendo ao Chefe dos Chefes impor a lei – até porque, se não o fizer, ficará sem pescoço.
A escolha, aparentemente inócua e sem grandes perigos para a alteração da dinâmica patriarcal instalada, recai na assistente do Chefe dos Chefes, que de um dia para o outro se torna na “estagiária a chefe”, cargo que todos julgam que se manterá eterno. Da gestão da agenda e organização da papelada, esta aparentemente tímida personagem começa a gerir bares de alterne, a beber como uma esponja, a fazer cobranças difíceis e, quando a ocasião o exige, a sacar do chino para ajustar contas com quem se atravessa no seu caminho.
Num livro com a vertigem de um filme de acção, Ricardo Adolfo diverte-se – e sobretudo diverte-nos – a brincar com o mundo laboral moderno, questionando a ética coorporativa e o mal que lhe está associado, analisando a sanidade mental de quem conta com o cheque no final do mês e, sobretudo, inventando mais uma brava heroína, que nos recorda uma grande verdade: ainda temos de ser todos feministas. Que o próximo demore menos tempo a chegar às livrarias.











Sem Comentários