“Há pelo menos cinco anos este livro quer sair de mim”. Quem o diz é Tati Bernardi, que se chega à frente para se proclamar “A Boba da Corte” (Tinta da China, 2025). Um livro situado entre a auto-ficção despudorada e uma inclemente radiografia sociológica, tirada a uma elite a que chegou e à qual pertence – mas a que torce o nariz da recusa, assumindo sem medo o papel de “monstro cínico”.
Sempre com um stash de Rivotril, Vonau e Novalgina por perto, Tati recua a um dia de festa do seu aniversário, num apartamento de um bairro nobre de São Paulo, onde não sentiu mais do que deslocamento. Uma ansiedade provocada por uma série de factores, que foram desde ter a amiga perdida – e com medo de morrer – no sítio onde ela própria nasceu, ou de se ver no papel de aplaudir a senhora contratada para cozinhar, qual fazendeira condescendente.

Num livro de ansiedades várias, Tati fala-nos de classe e privilégio, mergulhando no álbum de fotografias pessoal para falar do armanço da própria família, assédio laboral, obsessão por dinheiro, casos sexuais – incluindo a primeira experiência com um residente de urologia -, pedantice no meio literário ou uma muito jeitosa colecção de vibradores.
O tom vai do brandir do machado a um amor lamechas, numa escrita veloz e catártica seja sobre relações falhadas, bundas e boquetes, o abraçar da escrita como uma herança familiar ou a colecção de pratos de Vista Alegre como um elo para o tempo futuro, onde já não terá a mãe por perto. Nesta Corte a que teimamos chamamos mundo, é uma sorte danada termos Tati Bernardi como a boba da corte.











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